
mil novecentos e oitenta e oito ou noventa
1
de braço de prata a braço de prata só o rio é o curso que nos separa de um encontro que esperámos. o relato não pode ser resgatado da memória tal como a paixão preterida pelo que não foi viável. não sabemos se é um testemunho ou um apelo. não nos apeteçe esquecer uma possibilidade extraordinária sobre o que ocorre: uma soma tremenda e a multiplicação avultada das sensações que nos preencheram na manhã de ontem, de um dia e de um lugar de ontem. no ritmo exacto de cada impulso, ultrapassamos as diferentes transições até ao ponto de chegada. primeiro a alvorada e depois a partida de uma romagem da cidade até ao monte. é um dia em que a aventura limita-se a acontecer na falta de um significado para além do que é descrito. o sentido excessivo, a pureza inerte, o encanto inscrito num acontecimento que passou, são talvez os modos de uma recordação que experimenta a impossibilidade de ser recuperada na brutal percepção do olhar. aqui, na cidade funesta que é hoje a nossa, nos circuitos que precisam das horas para desaparecer.
o aqui e agora neste sítio que estimámos, apenas devolve ao passado a presença fantástica, a imagem inscrita, retida no tempo circular. só por isso o futuro cristaliza o sentido, o singular brilho da história de um local onde vivemos, o amor que aí nasceu e foi crescendo, que se alastra a todas as coisas que tocam e resplandecem, enquanto criamos os laços que permanecem ao redor. um mundo de afecto, investido nos detalhes outrora integrados no curso normal das coisas da infância. o mundo que permanece sem embargo, a despreocupação que percorre o hábito de viver.
recordamos quem nos guiou nas primeiras rotas de que há memória. o modo audaz de caminhar pelo chão rude e pela água. celebramos a presença de quem nos deu o trato e a decisão, a exaltação da vivência como a preciosa herança que nos deixam.
quatro pessoas como vultos à solta na passagem tardia da madrugada. não deixam trevas nem tréguas à passagem das horas, mas partem no entusiasmo completo para quem é novo na experiência da vida. são por todas as coisas que chegam e vão: tempo, instância, momento, fumo de vapor, sede e fome, desejo e confronto, enquanto todos chamam por todos como se fossem embora para sempre. dois homens, uma mulher sem nome, a criança sem nome que ainda dorme!
recordamo-los como fiéis venturosos de todas as lunações que definem o fim do verão, do estilo temperado na aurora da vida e de um tempo que entretece o encanto do sono. vão eles pagar o soldo das noites e o termo dos dias na graça de mil novecentos e muitos nomes, tantos lugares, e tantos anos passaram até hoje que já não restam clareiras para contar sobre a hora precisa, como se esta fosse o início de uma saga, o mito e toda a trama.
vagamente recordamos outras auras, eminências ao serão, a conversa baratinada da noite passada. o amalgama de histórias de amazonas que trocam de garupa e folhas secas. o expediente do jogo das alternativas. o despiste de uma carroça na estrada do campo. a lama na valeta. o animal vertebrado e a espinha quebrada. um homem cativo do seu passado, que a custo investe no modo de libertar-se do inexorável.
- ‘toma lá o teu centro do mundo!’ - dir-se-ia.
- ‘um homem presumido é um tipo desconcentrado! o que é que tu achas?!’.
- ‘o quê? não acho nada! talvez seja um génio seboso...’
reina uma alegria com a crença que diz mudar os lugares do mundo, ao ouvir música do povo, e a pintar paredes e telas com a mesma cor baça. mas o sentimento de domínio das circustâncias terrenas é pouco mais do que a contemplação sem trâmites nem obrigações pessoais. a conversa incendeia a convicção e deixa tudo no mesmo lugar. nada há do que diz ‘sim, és tu agora! vai em frente!’. não é para nós. queremos andar.
não fora o desejo de retornar, o tédio de permanecer e a vontade de abandono que fada neste quarteto, e replicaríamos o temor com a expectativa. somos a quadrilha imaginária que dá o mote e o voto para a viagem de regresso a casa. não deixamos para trás nada do que se podia perder: hábitos e rotinas, a malta na bazófia, as lérias de costumes sobre o modo de usar e deitar fora, beatas de cigarro e borras de café...
recordamos os momentos de sono daquela criança ao colo da avó. a promessa de futuro nos braços da mulher. a escolha do nosso rumo é propícia, está na mão de semear a acção e colher a consequência. a expectativa, imperturbada de imprevisto, de que ainda hoje estariamos no monte ou então o impedimento consentido de ficar aqui onde já pouco ou nada importa para o negócio.
são mais as falsas trovas, as luadas que nos capturam o tom, a névoa branca das lucernas, baladas que despedem as ruas estreitas, à saída da cidade antiga. é o sépia das vielas e o salgadiço nas paredes, entulho de estuque e caliças na berma da calçada, os astros extintos e as luzes que piscam como vaga-lumes nas brumas do tejo. mais uma noite amena de incerteza na descida rumo à estação.
santa apolónia abre os portões aos mendigos e só depois os quatro entram - a criança que acorda, os avós e o feitor vão para norte, não muito longe, e no entanto tão distante e tão distinto do que era visto. a extensão da lezíria já é província, saúde e vigor. a carruagem abre as portas, para o corredor estreito onde caixotes e malas são levados à vez e deixados nos compartimentos escuros. uma voz dá ordem de partida. nenhum adeus, nenhum aceno sem olhar para as luzes que ficam para trás. talvez surgam sinais de dúvida, a tentativa de apelo para retroceder. mas agora já pertencemos ao movimento e as linhas afunilam-se para o túnel. apenas o reflexo da criança sonolenta no vidro da janela, os primeiros halos do sol dão resposta firme à vontade de partir, com os avós e o feitor da companhia. cabe-nos apenas deter o tempo para ver pela janela do comboio a saída de lisboa, dispor agora da encenação da velocidade, das junções de aço dos carris, o som abrasivo, o declive da colina até ao rio lá em baixo na tralha do cais, os trapiches, chaminés e telhados das casas, os terminais das plataformas, vagões abandonados, o depósito, os armazéns de madeira já na velha estação de braço de prata.
prosseguimos na encosta rente ao tejo que nos aguarda. nenhum adeus, nenhum aceno ou remorso do que fica, e de novo a vontade não declarada de dormir.

2
amanhece num toque como sopro para acordar uma fresta de sol. um safanão de palma e dedos de mão que abre a porta que não cede. vila franca esperou por nós na encosta das serras quando assim nos dizem que ‘vamos sair!’. e toda a expectativa à descida do comboio faz-nos ver que já não voltamos. é certo. é duradouro. que ainda hoje estaremos no monte na medida justa das horas inventadas.
e expandimos o olhar pela vaga curiosidade, pela visão despida do reconhecimento, o impulso de andar nos corredores do jardim à beira tejo, entre muros de ciprestes. a vontade de afastar com o gesto os ramos das árvores é apenas movimento e desembaraço. a solicitação que nos move e faz mover são o estigma, a aparição efémera das coisas, como se estas vibrassem antes da permanência no olhar. um piparote do vento nas folhas caídas, nos grilos que rastejam no chão, no orvalho das ervas, no verdete do musgo das pedras. a criança agitada faz do que é novo a tropelia. põe em fuga o gato pedrês, pula a cerca dos faisões. brincar é a travessura que dá luta ao divertimento.
-‘não o deixem ir para a borda!’ - a ordem expressa ao cuidado dos avós que aguardam sentados, e a rogo do feitor a bagagem é posta no barco atracado no cais deserto. só as estátuas das tágides estão aí perante tudo e para nada, são toda a gente e ninguém à beira das lágrimas de uma breve despedida. a silheta da ninfa de pedra foge quando a tocamos.
na manhã que emerge, tudo o que se estende na distância é sereno. a ilusão devolvida à natureza na sua vocação extravagante não cobra o esforço da visão próxima. o pulso fluvial oscila no barco ancorado. a força é a máquina e febre perto de nós. a tensão que estica o ferro, faz tremer os grampos e os cadernais, as garras da fateixa erguida, as cordas que estalam presas na cavilha, as velas içadas nas roldanas do mastro. que as amarras soltas nos libertem do embaraço e da espera! que determinem a sorte que merecemos!
abalamos no barco na demanda que nos guia. na insinuação do vento. e todavia banhamos a sul como se voltássemos para trás, com a fuga dos lismos, coroas de plantas aquáticas, juncos da maré a boiar na corrente. convocamos a vida toda, o sentido determinado na travessia de mundos que nos espreitam, no significado das mais variadas frases da natureza. não é a curva do rio que estende o limite, nem as notas de viagens que sobram do esquecimento. são talvez o trato e noção de podermos ser cada um dos passos que damos. nada premeditado é susceptível de ser dominado. é possível que haja qualquer coisa que nos sustente, como diria a avó. o tombo e o atropelo na largada do cais são os quesitos da espera que nos destinam: a reserva, devoção, singularidade, fé, amor, compromisso e força.
‘argola-do-mar-da-palha’, um nome rumo ao porto de estacas na ponta d'erva. a embarcação afasta-se da orla do rio, da cadeia contínua de serras junto à cidade, a juzante da ponte arqueada. somos jasão e os argonautas. mas o velo que cardamos tem a prata que o ouro não compra. somos os braços outrora espelhos de água abundante.
- ‘onde é a terra fértil, erva e fruto do chão que pisas?’
- ‘sim! braço de prata!’ - sorri o avô com o entusiasmo da novidade.
somos uma história originária, braço robusto do mundo feito de água. o relance de um golpe profundo entre os esteiros prateados do rio. o percurso obstinado para a ponta d'erva faz-nos ser onde vamos. somos a foz do almansor, afluente com nome de rei mouro. somos estuário e planície. e aí fomos pesca de fataças, remolhão de enguias. o pântano e a cordilheira do vale. só o acaso e o imprevisto nos faz descer o tejo para lá das ilhas que o povoam.
seguimos pela margem esquerda dos deltas do mouchão. desbravamos a linha nítida do horizonte, das terras baixas da lezíria e avistamos no fundo da margem as velhas ermidas viradas a poente. e a gama de cor tinge a superfície do mundo com laranja e vermelho, as figuras primitívas das regiões celestes vertem réstias de luz que expandem o céu, como um lençol suspenso sobre as núvens.
há uma entidade tomada em mãos na perícia do barqueiro. um plano sem cartilha. o mapa traçado com a destreza do olhar. com a missão da chegada e assim estamos mais próximos do monte. e tudo o resto é a estatística dos almanaques, onde a proa é a lâmina e a fidelidade da promessa. os flancos esguios do barco deslizam no corpo da água, o caudal espelha o sol como se quisesse olhar para a eternidade. estas são as operações do acesso, da finitude do alcançe, no modo escasso de ver o que há para ser visto. são as aptidões de quem navega. o conflito e a contradição da experiência.
como se regem as normas do percurso? - só um ponto de vista em pé, em alerta constante de poder ser arrastado. a possibilidade imprevista remove o risco e o cálculo, furta-se ao instante antecipado de uma ordem natural. a sabedoria do rio faz-se à ré, entre a popa e o mastro, na cana do leme. a bolina nas velas, com lonas de linho, varadas e remos sem vento nos baixios, até ao fundo do rio. a essência detectada na suspensão da circunstância é o núcleo da esfera intima, a forma intuitiva de quem convive com a vertígem da corrente. o rigor e a disciplina são a prova do apreço pelo movimento da água.
há que impregnar a imagem com a semelhança. detectar o parentesco e a cumplicidade no modo de encontrar o tom certo da voz, no propósito de desvelar a fisionomia adequada das coisas estranhas, o encanto que nos persegue, a fusão dos olhos no horizonte. um tom afoito no afrontamento. o dom permanente, mascarado nos momentos de impotência, a força da motivação, o prodígio da concretização dos designios mais íntimos. o enigma de uma voz oculta é a ousadia contra o espírito cativo. retomamos a resolução que faz do medo um hábito.
desprezamos sem despeito o que estagna o mundo, a letargia que o torna estático, o olhar ocluso, atordoado na massa de tanta desordem e incompreensão. a aparência transitória de compor a vida com espaços, com músculos e tendões postiços é o logro da tarefa inacabada. uma enfermidade de ânimo sem nervo, sem tensão que preencha toda a vida. a fase iludida (a fracção temporal) no quebrar do enguiço, na dúvida do adiamento que aguarda pela véspera de outro dia e muitos dias depois. e guardar com tão pouco e sem preparo o que não é de hoje, nem de amanhã, nem dos próximos que virão. de uma vida de espera que ainda somos sem agir num barco à deriva.
mas nós! nós sabemos para onde. ou embandeiramos em arco e chocamos de frente.
a criança molha os pés com água do rio, na fragrância suave da pequena praia onde desembarcámos. ponta d'erva deu forma a muitas memórias. na mudez das coisas fixas dos sentidos, deixámos de gostar das coisas de quando eramos novos. porque a repetição é teimosa como uma criança sem idade. é agora parte do horizonte mais claro do dia.
- ‘se fosses para lá da foz, irias como as aves que voam para o estuário...’
seremos nós capazes de ouvir aquela voz?

3
cada momento está escrito em nós como remissão da vida toda arrastada ao limiar dos tempos. é uma falha necessária, uma ausência que se alastra à totalidade no fundo de cada dia que passa. o acto ocasional de cuidar em fazer coisas é apenas a tentativa malograda de semear numa terra estéril. a memória não subsiste ao acaso, porque a inconstância faz da recordação um êxito precário. o lugar da impermanência é a contradição da fuga numa redoma. como se nunca chegassemos a ir embora, e estivéssemos sempre no mesmo lugar. querer ter agora o que foi preterido pelo esforço é assumir sem notícia o equívoco de um contrasenso, um lugar que nunca foi. tal como uma oportunidade desperdiçada que passa a ser um desperdício inoportuno.
há motivos particulares que agridem os espíritos que não são do campo, cuja impressão é absorvida por quem lá vive como a instância do que faz parte de uma extensão do temperamento, de um estilo peculiar de abertura ao mundo, à vida que nele se inscreve, que se impregna de corpo e alma num modo de ser. a aplicação de uma técnica adequada à bravura, faz parte do seu sistema interno, integra-se numa cadeia de continuidade nem sempre explícita. o domínio humano sobre a natureza só é válido na amplitude de uma revisão e de uma concordância que é aceite pela vida natural.
a travessia destas terras que percorremos criou desde sempre uma vocação de esforço e engenho. o pantâno que outrora inundava os extremos mais remotos da planície deu lugar a um ventre de múltiplas cavidades na conquista do território ao rio. foi um processo prodigioso de espanto registado nos autos da história, nos inventários da companhia e nos livros das miudezas de quem por cá viveu, nos imemoriais pergaminhos de sant'iago de espada.
a incumbência de um feitor resume-se a um breve conjunto de considerações - quando um homem é digno, tem a tarefa de responder verdadeiramente por si perante outros. é antes de tudo um servidor que acolhe os protestos caprichosos da natureza. o responsável pela sucessão de um território, transmissão e testemunho na lida constante com os veios orgânicos da lezíria. é a instância tutelar entre iguais e o desprendimento sobre aquilo que reconhece como provisório. um desígnio, com firmeza e sem contemporizar, de eludir o conflito com a terra e com os homens. mas fecha os olhos à socapa, ao furto das bolotas e do cascalho nos aventais das mulheres descalças. a atitude solidária de quem viveu na privação da fome. não é um homem sedentário dos papeis e aparas de caneta, nem alguém que trava a luz do dia com a mão protegendo o rosto. é alguém inquieto com as disfunções tortuosas do cultivo, que adverte para a incompletude da técnica. cada um como cada qual sabe de si. do lugar e competência que se conformam no compromisso individual, na diligência das funções colectivas, na precisão do desempenho de cada um dos membros e na missão de fortalecer o âmago da companhia. entre pares, um olhar é a integridade, um sinal simultâneo no acordo das atribuições. perante a adversidade, cabe manter a preseverança e a resistência do mundo em redor. a estrutura originária da vida que tem o seu modo específico de acolher tudo quanto acontece, na cadeia ininterrupta das estações do ano, na condição das aparições que renovam os ciclos, ao encontro das premissas do crescimento de plantas e animais. como uma forma de prestar juramento aos princípios da natureza.

4
a espuma nos freios dissolve-se na água que corre na foz. a cabeçada e as rédeas são tiradas para que os animais bebam. eles mostram-nos na sede o olhar benévolo, o corpo quase imóvel de que é feita a breve espera. só os pequenos espasmos nas patas e os movimentos da cauda afastam as moscas que os cercam. o pelo lustroso reflecte o brilho do sol e os maiorais aguardam com os cavalos que nos levam ao monte. uma romaria equestre louvada nos confins da lezíria. são homens consagrados à dureza do chão calcado de pó. no peso das feições que mostram o rosto trigueiro, a pele curtida, as pálpebras e as rugas contraídas pela claridade solar. escondem a testa pálida nos chapéus que empunham para saudar. mortalhas com tabaco apertadas na aspereza de mãos secas, encardidas de saibro. e foi preciso falar, reclamar um atraso na demora do reparo. mas o que em nós habita traz-nos sempre de volta.
com pés nos estribos e sela aparelhada, o avô monta o cavalo branco. tem a pelagem rasteira e a brandura de ânimo sem marca de esporas. todos os cavalos têm um nome que designa um temperamento. mas de que lhes serve o nome se ignoram a ciência incerta? de que nos serve abalar, com os passos elegantes do trote, se o cavalo não deter a plena estima que anuncia aos homens a aptidão do caminho? a natureza é matriarca. embala-nos à sombra da ignorância recolhida na divagação da sua inteligência soberana. pagamos o tributo de tentar travar o mundo sem resposta que nos preencha. na clareira extinta de um horizonte de incógnita.
atrás das nossas costas ficam centelhas de água e luz que se prolongam até lisboa. a norte vemos vila franca que nos alcança como se fôssemos uma aresta do triângulo. a distância crescente do vale mostra ainda o fumo das cidades no outro lado do tejo. marca o contraste das margens que percorremos, no solo que pisamos, nos antípodas de aglomerados de casas. ali estivemos e aqui estamos, debaixo da alçada do tempo. no calor de outono que tomba na sesmaria de arbustros secos. à revelia de uma terra que ama o silêncio, os ciclos húmidos e os ciclos da seca, do nascimento e da morte, que quebram a manobra da fertilidade que os homens engendram, o modo adverso da recolha da vida. ali estivemos e aqui estamos. na pulsão mundana, em comunhão com o que apaga a tristeza transitória na presença de gente nos lugares que escolhemos. a despedida sem o aceno. o relógio de bolso parado nas horas.
uma charrete traz a carga que veio connosco. leva a mulher e a criança, aos solavancos pela estrada de fendas no lodo seco e crateras da erosão da chuva. as poças de água são buracos do céu. e o chão a crosta que o protege. mas quando os cascos chapam na água, o lodo revolve manchas que se alastram de castanho e cinza no reflexo do azul tingido. há na carroça uma manta lobeira que tapa uma caixa esquecida com botões e um caderno vazio de folhas amarelas manchadas de argila. erguemos o mundo no papel amarrotado, conservamos o fôlego na definição das coisas, o encontro fortuíto inscrito nas palavras. o desenho das letras deformadas são a sentinela do que nos espreita, o modo velado da realidade que persiste, na confusa e desmedida transgressão.
- ‘cha... caha... chacoteca! chaaarnn... charneca!’
- ‘soletra e escreve! aponta tudo, senão esqueces!’ - diz a avó.
- ‘não te bastas quando queres dar-te ao mundo! ele chama por ti quando menos esperas!’
no esgar ofuscado pelo sol, a criança olha para a avó. não percebe o que ela disse. mas os cabelos pretos debaixo de um lenço e a pele acetinada do rosto altivo da mulher deixam a impressão de que ela não pertencia àquele lugar. de que o caminho arrojado nos confins da planície é um êxodo precário. que nem todos os caminhos são de pedra, de água, de ferro. de que o campo é o cativeiro que sustenta a solidão de quem quer viver num ermo. isolado do mundo e das luzes da cidade. foi talvez uma lamúria inofensiva. a voz embargada pela imagem de um apego inexistente. um sorriso dissimulado que se fixou na memória.
só agora, ao fim de tanto tempo passado, percebemos o que ela quis dizer. o passo-a-passo na ilusão de ganhar terreno e vantagem presta-se a afundar sobre si próprio. que o futuro não é a caminhada triunfal da novidade permanente. assumir um rumo de propriedade singular não causa algum nexo para nós visível entre a salvação terrena e o centro do mundo que somos. e nós somos como o animal tresmalhado do gado bravio a pastar nas ervas. não é o porte erecto e o olhar fixo do touro listrão que nos trava o medo da colhida letal. mas o chão que se move debaixo dos pés, mostra e esconde uma relação furtiva. o campo agreste é um paradoxo, um sistema de armadilhas. é adverso e generoso quando tira com uma mão o que deu com a outra. é o escondimento e o obstáculo. metamorfose e transfusão dos sinais que nos conduzem. para variar, a natureza é terrívelmente bela no palmilhar da distância percorrida pelo olhar. mas a proximidade vivida na carne, no osso e no tutano de que agora é para sempre, é a atitude de quem não passa da cepa torta. o tempo reconstruido dá um outro sentido ao mesmo acontecimento. a cidade é agora a última província. um claustro de multidão para quem os morangos crescem nas árvores. o reverso do mesmo sítio, do mesmo olhar. o lugar onde nos fixámos, esteja ele onde estiver, desmembrou-se na recordação.
5
caminhamos para dentro nos trilhos do mato que tolham a cadência contínua da marcha, a passada dos cascos, o rasto das rodas. entre as sombras dispersas e clareiras ardentes do clima do dia, retemos fragmentos da velha courela. a pose e o espanto das formas das árvores. a planura dos montados é vista de longe. uma coruja branca não avisa o olhar. voa em fuga assustada à passagem dos homens entre sobreiros dispersos no planalto remoto. as copas que escondem o retiro da coruja são feias, são espessas de pequenas folhas, grotescas, medonhas. o nó sinistro suspenso nos troncos. um corpo de ramos torcidos quase rasteiros ao chão. outras árvores há despidas de folhas nos baixíos na lezíria. nos ramos secos de porte esguío, pousam corvelos e o despojamento desolado do que é feio, grotesco, medonho. formam uma fila longínqua, inclinada pelo vento, tal como a marca pontilhada de linhas invisíveis que acompanham os ribeiros secos.
mas todas as árvores têm raizes. todos os homens têm raízes como as árvores. têm bichos que esgravatam, escondem névoa e vultos que acordam o mundo pela manhã. são o relevo saliente na terra que as sustenta, as membranas que aí crescem e frutificam. é o bolor dos fungos escondidos na madeira apodrecida.
no zambujal das oliveiras existem roseiras com espinhos bravios cobertos de silvas que vedam um pomar agreste dos furtos de frutas e flores que adornam a casa. onde os simples rudimentos das enxertias, as pequenas dores da incisão e do parto dos novos galhos das árvores são atadas com cordões de ráfia e sizal.
no maciço de pinheiros nós somos pequenos, como se mudássemos de dimensão e nos tornássemos anões no meio de gigantes e o mundo gerasse maior desporporção na vertigem de quando olhamos para cima e para baixo. a seiva da rezina é o sangramento de todos os pactos derramados com as árvores e com os homens.
a aragem no caminho levanta a poeira, o cisco dos torrões, das aparas das folhas, das cascas no chão que rolam num rodopio de fragmentos nos eixos das rodas. os caminhos dividem as herdades da lezíria com estacas de madeira e braçadas de arame. os atalhos que separam a baracha e a adema foram percursos de escudeiros desertados na cobardia.
nós somos o homem em movimento que é olhado na floresta pelo milhafre empoleirado. a vigia e o espanto dos pássaros, feito de cruzes de madeira e esteiras.
somos um pouco do que nos orienta nos espaços, onde ecoa o assobio estridente que chama pelos cães na caça às perdizes, e a trombeta que chama pelos homens com cavalos a galope que guardam a floresta.
sabemos da benção, da boa ventura das velhas mulheres do monte que velam quem chega ao antigo novo reino! já o prado vermelho das papoilas de unha negra e a casa no promontório são o vislumbre crescente entre as árvores do mato. um cavalo ferra os dentes na cançela isolada no meio do campo como se ele próprio pudesse abrir mais caminho depois do fim da linha. aqui começa para uns o que acaba para outros. caiem as esporas, estribos, pingalins de couro, pingos de chuva grossa nos dias de verão. os animais espojam-se no chão.
uma chegada é terna, acolhe calor. vale a demora do acesso nas horas que não sabemos da tarde. e as velhas cachopas beijam-nos o rosto, sorriem para nós e limpam o beiço escorrido de suor, com trapos brancos que têm na mão. ofertam a lã cardada de prata e o pão que comemos com nozes e maçãs. jasão morreu. toda a gente nos acolhe com um abraço que é ninho de cegonhas nos postes gigantes, a coruja branca que foge dos homens, o vôo do milhafre que olha para nós, que todos os dias são dias de espiga, de osgas, de vidas de gatos.
- ‘o primeiro da vitória!!!’
o primeiro da vitória é o que vende bagatelas, um torrão de terra com sulcos de arado nas botas de cabedal. é o maioral de cajado, do arneiro-milheiro-da-pedras-que-correm. é a criança o primeiro da vitória quando todos se juntam para vê-la chegar. e dá bagatelas aos bichos, torrões de alicante e açucar que se desfaz na palha guardada no estábulo para os cavalos.
mas na égide dos ciclos, o primeiro da vitória não é afinal o homem montívago, nem a criança que suja as mãos. o primeiro da vitória é a chegada do que está prestes a nascer. o primeiro da égua prenha deitada no estábulo, com olhar que é aflito, tragado de dor, como quem pede auxílio. como todos os primeiros, segundos e últimos vai chegar molhado e cambeta das patas. um poldro a pular na dança do pogo. as águas rebentam e a placenta cai na palha seca. o estábulo é iluminado com candeeiros a petróleo e cotos de cêra.
a água da sabonária corre para o chão e as mulheres deixam a roupa a secar enquanto enchem uma caldeira na lareira da cozinha. as ferraduras na bigorna e a forja do ferreiro deitam fumo de vapor da água vertida. na água morna da caldeira estão molhos de ervas, que escondem respostas até hoje estranhas.
o cheiro da erva tenra recolhida num ramo protege o augúrio do bem contra o mal. o preparo das safras, dos tratos nos espíritos, é o dom e a queda nas graças manhosas, dos sortilégios das mézinhas das mulheres idosas. o rosto é dócil, o corpo compacto com xailes escuros, que mostram as mãos, os gestos atávicos, a orígem das forças, das receitas das ervas, na captura dos maus-olhados, dos quebrantos das colheitas e buchos revirados dos recém-nascidos. recitam uma ladaínha do lendário responsório. incitam paixões no sustento das terras na força animal depois de pousíos, recobros, refluxos. só a humildade das velhas mulheres trava a queda da folha votada ao esquecimento, a abolição do equilíbrio em retirada, expremem sucos arcaicos da hera do campo e ervas daninhas. são parideiras e mães e bruxas.
- ‘passo a fronteira de manchas fecundas impressas no solo, cravadas no espírito. dou ordem das coisas benignas, malignas, queixumes e prantos, enguiços quebrados!’ – lido no papel, antes do sainete do coro.
- ‘se partes o galho com o peso do corpo, a ti não te valho, cais tu e o teu corpo... cuidado homenzinho, pois medo não tenho, aguça este engenho, com o tento na lingua, se não queres a mingua, de peso e caminho... não meças terreno, que tentas pisar, o teu tino é pequeno, aprende a pensar... o que está embuchado, é o mesmo que expias, em ti entranhado, que a outros dirias... com azia e o dreno, no bucho a mirrar, do teu próprio veneno, vais poder provar ... pois agora cuidado, que vão transtornar, o teu corpo quebrado, vais mesmo penar... e na justa vingança, de um homem trair, a mulher faz a trança, da terra a parir... e sã é a cria, que da mátria sai, a luta do dia e a troca do pai... e a garupa trocou e feliz ficou, a égua malhada espojou no pernil, a todos os santos promessas eu dou, janeiro em quebrantos, colheita em abril...nos sinais dos meses prolonga o responso, p’ra todas as rêses de bandulho insonso...’ – recita o desaforo das velhas mulheres e os candeeiros e os cotos apagam-se com o peso do vento a correr no estábulo.
uma reza, um sussurro do coro de mulheres, é como o som das aves nidificadas que pedem com fome aquilo que elas próprias regurgitam. o som das andorinhas que ouvimos lá fora é suave à passagem pelo ar, distingue-se dos estorninhos-corta-ventos, dos pardais cinzentos que picam os pêssegos chochos pendurados nos galhos.
um cheiro de uvas fermentadas, acolhe o travo do mosto de vinho, na conversa inacabada dos homens à porta do estábulo. os grãos de açucar espalhados na palha vão tirar o quebranto do destino febril de quem brinca com a vida. as mulheres cançadas voltam para casa sem resposta no final do verão.
apenas alguém fica a olhar para a criança escondida no meio da palha furtada das atenções.
- ‘quem és tu?’
- ‘és rosa ou guadalupe. em cada uma das pétalas. nem pareces a mesma que vi quando eramos pequenos! era a ninfa na infância que foge de nós, tal como a estátua que vimos de manhã. e tremes lacrimosa com a cabeça molhada, vestido de alças e folhas verdes, uma cortina branca entre o sol. a verruga no teu joelho que toco como um segredo só nosso e pergunto se era como a casca das árvores. enquanto ouviamos o coaxar das rãs, e ao longe o teu pai chamava para o almoço. e escondiamos o tesouro da caixa de botões e lá dentro também um mapa a fingir numa folha rasgada do nosso caderno numa cova perto da figueira grande. e comemos todas as nêsperas maduras e mandávamos os caroços um ao outro. inventávamos as guerras que tu sempre ganhavas. e fugiamos de triciclo de madeira entre a seara de trigo prolongada na encosta. todos os dias eram dias de espiga, gafanhotos, cigarras, falenas, vidas de gatos. e entrançavamos as crinas dos cavalos e jogávamos à espada que tu sempre ganhavas. inventávamos histórias de fantasmas nos silos e esconderijos de insectos com folhas das árvores. e faziamos cidades com pedras de seixo. protegiamos os formigueiros com fortalezas e pontes. deixavamos migalhas de pão seco e folhas de alface da horta para que elas comessem, que as andorinhas levavam para os ninhos dos silos. as nossas mãos cheias de bagos do ardor das urtigas. as pernas esfoladas e arranhadas dos cardos. o nosso reflexo no fundo do poço que a avó não queria que fôssemos para lá. e atiravamos marmelos podres para o fundo do poço e olhávamos os rostos na água com lismos como quem dança frente aos espelhos das feiras. e mergulhámos os pintos no alguidar com a água que chorei quando vi os olhos cerrados dos bichos e os bicos abertos onde sopro para dar-lhes fôlego e a galinha careca pica nos tornozelos, e o galo careca da crista flácida, tufa e sacode as penas do peito. e aflito chamou num pranto a avó e o senhor da horta, que os pintos morriam e que estava com medo. e eles levaram os pintos para junto da lareira e na manta lobeira que os aqueceu...’
- ‘pronto! não se rale mais que os bichos estão bem! não faça outra igual, pois se o seu avô sabe...’
nunca mais a criança veria aquela mancha sensível no joelho da menina acanhada. ela é hoje a falha necessária da ausência. o ponto de fuga e remissão para a vida.
–‘hei-de chamar por ti – rosa ou guadalupe - e procurar-te quantas vezes forem precisas, que o tempo não é de espera!’
nas palavras fortuítas da circustância sem expectativa de nunca mais, o pensamento integral, é hoje vivido nas fracções. fala-nos por conta alheia do espaço e tempo que deu forma. ensina-nos que sem algo de sublime, nem que seja apenas um cisco na terra, não pode o homem sair da infância para afrontar a vida. se conservar na alma o vislumbre do mistério desse cisco, ele foi aventurado.
o que foi fácil, nada fêz crescer. encravou-se no esquecimento. tal como o tronco da árvore solitária que se expande no olhar profundo da lezíria. que mesmo nas fissuras grosseiras da casca, devolve o esplendor da dicotomia: de que a prostração é talvez um modo de ver devolvida a integridade. se uma árvore falasse dir-nos-ia: começa a aceitar uma derrota com a cabeça erguida e olhos no horizonte. e se assim fôr, verás que estas árvores nunca se abatem pela vontade humana. se uma árvore falasse diria: ‘não tenho medo de ti!’...
© miguel pessoa vidal / cavalos no gelo 2008