ouvir: reconheço a ressonância e o timbre, o engenho mecânico das teclas, premido com os dedos, o som martelado das lâminas metálicas da pequena celesta e a voz polvilhada do vento a correr na planície. tal com o desvio de um caminho que nos leva a algum lugar, o destino ocupa um novo sitio que faz do passado percorrido um momento de agora. algo inexplicado nessa melodia atravessa a alma, torna-se real à imediata passagem como uma profecia esquecida que nos recorda o hiato de uma viagem até ao fim das nações ocultas da terra. o fim em todos os lugares recolhidos para lá da fronteira com as asas e despojos da cidade. um afecto perdido inscrito no acidente daquela lembrança que traz de volta a imagem solta, derivada de uma luz veloz que tal como pode surgir, pode também desaparecer sem aviso. os fragmentos da melodia esquecida devolvem a vida retida num instante intermitente, no desejo súbito de recuperar as palavras novas, as frases inéditas perdidas no tempo, uma seda rasgada do futuro de toda a duração instável, um fragmento de filamentos luminosos de um tecido vermelho que se desprende do lugar remoto e deslisa com o vento, a pairar como um monólogo sobre a adaptação, sobre a surpresa e o espanto de já ter estado aqui. a corrida do vento é como um animal que foge em todas as direcções, uma presa que não quer ser agarrada no momento imprevisível. e o passo mais silencioso do esquecimento é um ponto longínquo captado algures na distância desse som de harmonias tocadas num instrumento com o tom agudo-celeste, como o objecto diáfano entre a linha extrema da zona difusa que divide uma planície coberta de gelo e o limiar do firmamento quase escuro que anuncia a tempestade. um ponto de poeira branca abre-se no horizonte despido do segredo que reconheço, a metade desconhecida do mundo. ao firmar o caminho sem retorno, o primeiro passo a dar é para trás e continua sempre moldado nas marcas de neve que se conservam na terra, tão esquecida nos contínuos abandonos, até encontrar um sinal de avanço. o relevo próprio atribuido ao signo indica-nos o cristal do olhar a pairar no vestígio. eis a presença de um reflexo brilhante submerso na noção vaga de que algo acontece, algo que preenche, que exulta na aragem fria sentida no rosto, desarmado na permanente fraqueza de sentido. o sinal a luzir no olhar está guardado num fundo de lembranças inapagadas. uma luz que esbarra na suave troça da insignificância alheia, dos seus sentidos vedados, no não glaciar da brisa vazia das pequenas perguntas que atravessam este instante, um momento efémero, entre a incessante roda que percorre a extensão da imagem revelada.

© miguel pessoa vidal / cavalos no gelo 2008

uma qualquer impaciência em relembrar a contingência do humor numa situação adversa é a morte do mais sério discernimento: seria bom que a estultícia nos doasse das mais benignas recordações e nos desse um apetrecho de novas capacidades de leveza na compreensão daqueles que por vezes nos rodeiam! parece que não estamos em condições de provar se praticamos uma modalidade de vida que nos abre ou não a uma escolha. parece não revogar uma alternativa, uma validade eterna que se preze de significado na presente condição. na vida, temos que fazer qualquer coisa, ou então como poder dizer que isto aqui não serve? poder mudar amanhã as coisas que não acabaram hoje como o projecto definitivo dos nossos desígnios. como uma revisão só possível com o tempo que transfigura o significado: enriquece os factos, faz-lhes desenvolver múltiplos fenómenos. tudo começa com uma pequena recordação inaugural. a imagem mais forte que resiste ao esquecimento. como a eterna falha de uma ausência a ser preenchida. o eterno motivo.
lembro um cavalo ao abandono sujo de neve recolhido no palheiro grande pelos que estavam na vigília das noites imperiosas de inverno. lembro que escorregou nas pedras lisas e caíu num charco de lama e gelo. o animal tinha feridas nas patas provocadas pelas queimaduras do gelo e mal se aguentava de pé. alguém riu da própria situação de contradição do cómico na dor e manifestamente resolveu a sua orgulhosa estupidez no que não era de si mas no que estava à sua frente, com uma gargalhada. alguém riu de quem riu primeiro quando este foi salpicado de azul metileno para limpar as feridas do cavalo, quando este deu um valente coice com o efeito de ardor do remédio.
isto para dizer que algo que é ridículo quando tangível de sinais e gestos, troca as voltas do todo e das partes que determinam um momento. mostra que o sentido não é arbitrário e nem sempre está desperto para o imponderável. que neste caso, é reiterado que o cómico só é revelado na contradição. a escrita de um fragmento intérmino sobre a vida ela própria definida a partir de acontecimentos particulares não resolve o seu sentido, pela sua forma distante de fim, no isolamento dos demais elementos que se agregam num mesmo e possível desígnio. são os espaços contíguos do mesmo acesso que vão unir o que foi estancado no fluxo do tempo. correspondem a uma tentativa de resposta que pode ou não correr bem. corresponde como que a uma citação descritiva de factos que ocorreram, como o desejo de emergência de qualquer coisa que ainda não sabemos o que é, mas que nos dá desde logo um pequeno vislumbre de uma intima alegria que pode ser esmagadoramente deslumbrante sobre o poder da memória, das imagens que se projectam e do que é expansivo à palavra. a aventura de escrever sem saber como acaba. recordar é uma fidelidade e uma possibilidade indispensável de exercitar o discernimento. mesmo disperso de uma exigência da vida que faz explodir a resposta que é dada em cada momento. as recordações formam um compêndio, o motivo cristalino, a escrita truncada sobre o que foi vivido como algo personalizado. tidas como fragmento, só assim são consideradas as recordações dispersas como partes de um todo. a elas pertence uma mesma corrente invisível de discurso que não escolhe desmembrar-se, mas que encontra nesse trajecto desconchavado a possibilidade de um modo adequado de expressão. a extensão e o alcançe da linha do que é provisóriamente abreviado é uma abertura de significado a ser revista, aumentada, enriquecida.

© miguel pessoa vidal / cavalos no gelo 2008

mil novecentos e oitenta e oito ou noventa

1

de braço de prata a braço de prata só o rio é o curso que nos separa de um encontro que esperámos. o relato não pode ser resgatado da memória tal como a paixão preterida pelo que não foi viável. não sabemos se é um testemunho ou um apelo. não nos apeteçe esquecer uma possibilidade extraordinária sobre o que ocorre: uma soma tremenda e a multiplicação avultada das sensações que nos preencheram na manhã de ontem, de um dia e de um lugar de ontem. no ritmo exacto de cada impulso, ultrapassamos as diferentes transições até ao ponto de chegada. primeiro a alvorada e depois a partida de uma romagem da cidade até ao monte. é um dia em que a aventura limita-se a acontecer na falta de um significado para além do que é descrito. o sentido excessivo, a pureza inerte, o encanto inscrito num acontecimento que passou, são talvez os modos de uma recordação que experimenta a impossibilidade de ser recuperada na brutal percepção do olhar. aqui, na cidade funesta que é hoje a nossa, nos circuitos que precisam das horas para desaparecer.
o aqui e agora neste sítio que estimámos, apenas devolve ao passado a presença fantástica, a imagem inscrita, retida no tempo circular. só por isso o futuro cristaliza o sentido, o singular brilho da história de um local onde vivemos, o amor que aí nasceu e foi crescendo, que se alastra a todas as coisas que tocam e resplandecem, enquanto criamos os laços que permanecem ao redor. um mundo de afecto, investido nos detalhes outrora integrados no curso normal das coisas da infância. o mundo que permanece sem embargo, a despreocupação que percorre o hábito de viver.
recordamos quem nos guiou nas primeiras rotas de que há memória. o modo audaz de caminhar pelo chão rude e pela água. celebramos a presença de quem nos deu o trato e a decisão, a exaltação da vivência como a preciosa herança que nos deixam.
quatro pessoas como vultos à solta na passagem tardia da madrugada. não deixam trevas nem tréguas à passagem das horas, mas partem no entusiasmo completo para quem é novo na experiência da vida. são por todas as coisas que chegam e vão: tempo, instância, momento, fumo de vapor, sede e fome, desejo e confronto, enquanto todos chamam por todos como se fossem embora para sempre. dois homens, uma mulher sem nome, a criança sem nome que ainda dorme!
recordamo-los como fiéis venturosos de todas as lunações que definem o fim do verão, do estilo temperado na aurora da vida e de um tempo que entretece o encanto do sono. vão eles pagar o soldo das noites e o termo dos dias na graça de mil novecentos e muitos nomes, tantos lugares, e tantos anos passaram até hoje que já não restam clareiras para contar sobre a hora precisa, como se esta fosse o início de uma saga, o mito e toda a trama.
vagamente recordamos outras auras, eminências ao serão, a conversa baratinada da noite passada. o amalgama de histórias de amazonas que trocam de garupa e folhas secas. o expediente do jogo das alternativas. o despiste de uma carroça na estrada do campo. a lama na valeta. o animal vertebrado e a espinha quebrada. um homem cativo do seu passado, que a custo investe no modo de libertar-se do inexorável.
- ‘toma lá o teu centro do mundo!’ - dir-se-ia.
- ‘um homem presumido é um tipo desconcentrado! o que é que tu achas?!’.
- ‘o quê? não acho nada! talvez seja um génio seboso...’
reina uma alegria com a crença que diz mudar os lugares do mundo, ao ouvir música do povo, e a pintar paredes e telas com a mesma cor baça. mas o sentimento de domínio das circustâncias terrenas é pouco mais do que a contemplação sem trâmites nem obrigações pessoais. a conversa incendeia a convicção e deixa tudo no mesmo lugar. nada há do que diz ‘sim, és tu agora! vai em frente!’. não é para nós. queremos andar.
não fora o desejo de retornar, o tédio de permanecer e a vontade de abandono que fada neste quarteto, e replicaríamos o temor com a expectativa. somos a quadrilha imaginária que dá o mote e o voto para a viagem de regresso a casa. não deixamos para trás nada do que se podia perder: hábitos e rotinas, a malta na bazófia, as lérias de costumes sobre o modo de usar e deitar fora, beatas de cigarro e borras de café...
recordamos os momentos de sono daquela criança ao colo da avó. a promessa de futuro nos braços da mulher. a escolha do nosso rumo é propícia, está na mão de semear a acção e colher a consequência. a expectativa, imperturbada de imprevisto, de que ainda hoje estariamos no monte ou então o impedimento consentido de ficar aqui onde já pouco ou nada importa para o negócio.
são mais as falsas trovas, as luadas que nos capturam o tom, a névoa branca das lucernas, baladas que despedem as ruas estreitas, à saída da cidade antiga. é o sépia das vielas e o salgadiço nas paredes, entulho de estuque e caliças na berma da calçada, os astros extintos e as luzes que piscam como vaga-lumes nas brumas do tejo. mais uma noite amena de incerteza na descida rumo à estação.
santa apolónia abre os portões aos mendigos e só depois os quatro entram - a criança que acorda, os avós e o feitor vão para norte, não muito longe, e no entanto tão distante e tão distinto do que era visto. a extensão da lezíria já é província, saúde e vigor. a carruagem abre as portas, para o corredor estreito onde caixotes e malas são levados à vez e deixados nos compartimentos escuros. uma voz dá ordem de partida. nenhum adeus, nenhum aceno sem olhar para as luzes que ficam para trás. talvez surgam sinais de dúvida, a tentativa de apelo para retroceder. mas agora já pertencemos ao movimento e as linhas afunilam-se para o túnel. apenas o reflexo da criança sonolenta no vidro da janela, os primeiros halos do sol dão resposta firme à vontade de partir, com os avós e o feitor da companhia. cabe-nos apenas deter o tempo para ver pela janela do comboio a saída de lisboa, dispor agora da encenação da velocidade, das junções de aço dos carris, o som abrasivo, o declive da colina até ao rio lá em baixo na tralha do cais, os trapiches, chaminés e telhados das casas, os terminais das plataformas, vagões abandonados, o depósito, os armazéns de madeira já na velha estação de braço de prata.
prosseguimos na encosta rente ao tejo que nos aguarda. nenhum adeus, nenhum aceno ou remorso do que fica, e de novo a vontade não declarada de dormir.

2

amanhece num toque como sopro para acordar uma fresta de sol. um safanão de palma e dedos de mão que abre a porta que não cede. vila franca esperou por nós na encosta das serras quando assim nos dizem que ‘vamos sair!’. e toda a expectativa à descida do comboio faz-nos ver que já não voltamos. é certo. é duradouro. que ainda hoje estaremos no monte na medida justa das horas inventadas.
e expandimos o olhar pela vaga curiosidade, pela visão despida do reconhecimento, o impulso de andar nos corredores do jardim à beira tejo, entre muros de ciprestes. a vontade de afastar com o gesto os ramos das árvores é apenas movimento e desembaraço. a solicitação que nos move e faz mover são o estigma, a aparição efémera das coisas, como se estas vibrassem antes da permanência no olhar. um piparote do vento nas folhas caídas, nos grilos que rastejam no chão, no orvalho das ervas, no verdete do musgo das pedras. a criança agitada faz do que é novo a tropelia. põe em fuga o gato pedrês, pula a cerca dos faisões. brincar é a travessura que dá luta ao divertimento.
-‘não o deixem ir para a borda!’ - a ordem expressa ao cuidado dos avós que aguardam sentados, e a rogo do feitor a bagagem é posta no barco atracado no cais deserto. só as estátuas das tágides estão aí perante tudo e para nada, são toda a gente e ninguém à beira das lágrimas de uma breve despedida. a silheta da ninfa de pedra foge quando a tocamos.
na manhã que emerge, tudo o que se estende na distância é sereno. a ilusão devolvida à natureza na sua vocação extravagante não cobra o esforço da visão próxima. o pulso fluvial oscila no barco ancorado. a força é a máquina e febre perto de nós. a tensão que estica o ferro, faz tremer os grampos e os cadernais, as garras da fateixa erguida, as cordas que estalam presas na cavilha, as velas içadas nas roldanas do mastro. que as amarras soltas nos libertem do embaraço e da espera! que determinem a sorte que merecemos!
abalamos no barco na demanda que nos guia. na insinuação do vento. e todavia banhamos a sul como se voltássemos para trás, com a fuga dos lismos, coroas de plantas aquáticas, juncos da maré a boiar na corrente. convocamos a vida toda, o sentido determinado na travessia de mundos que nos espreitam, no significado das mais variadas frases da natureza. não é a curva do rio que estende o limite, nem as notas de viagens que sobram do esquecimento. são talvez o trato e noção de podermos ser cada um dos passos que damos. nada premeditado é susceptível de ser dominado. é possível que haja qualquer coisa que nos sustente, como diria a avó. o tombo e o atropelo na largada do cais são os quesitos da espera que nos destinam: a reserva, devoção, singularidade, fé, amor, compromisso e força.
‘argola-do-mar-da-palha’, um nome rumo ao porto de estacas na ponta d'erva. a embarcação afasta-se da orla do rio, da cadeia contínua de serras junto à cidade, a juzante da ponte arqueada. somos jasão e os argonautas. mas o velo que cardamos tem a prata que o ouro não compra. somos os braços outrora espelhos de água abundante.
- ‘onde é a terra fértil, erva e fruto do chão que pisas?’
- ‘sim! braço de prata!’ - sorri o avô com o entusiasmo da novidade.
somos uma história originária, braço robusto do mundo feito de água. o relance de um golpe profundo entre os esteiros prateados do rio. o percurso obstinado para a ponta d'erva faz-nos ser onde vamos. somos a foz do almansor, afluente com nome de rei mouro. somos estuário e planície. e aí fomos pesca de fataças, remolhão de enguias. o pântano e a cordilheira do vale. só o acaso e o imprevisto nos faz descer o tejo para lá das ilhas que o povoam.
seguimos pela margem esquerda dos deltas do mouchão. desbravamos a linha nítida do horizonte, das terras baixas da lezíria e avistamos no fundo da margem as velhas ermidas viradas a poente. e a gama de cor tinge a superfície do mundo com laranja e vermelho, as figuras primitívas das regiões celestes vertem réstias de luz que expandem o céu, como um lençol suspenso sobre as núvens.
há uma entidade tomada em mãos na perícia do barqueiro. um plano sem cartilha. o mapa traçado com a destreza do olhar. com a missão da chegada e assim estamos mais próximos do monte. e tudo o resto é a estatística dos almanaques, onde a proa é a lâmina e a fidelidade da promessa. os flancos esguios do barco deslizam no corpo da água, o caudal espelha o sol como se quisesse olhar para a eternidade. estas são as operações do acesso, da finitude do alcançe, no modo escasso de ver o que há para ser visto. são as aptidões de quem navega. o conflito e a contradição da experiência.
como se regem as normas do percurso? - só um ponto de vista em pé, em alerta constante de poder ser arrastado. a possibilidade imprevista remove o risco e o cálculo, furta-se ao instante antecipado de uma ordem natural. a sabedoria do rio faz-se à ré, entre a popa e o mastro, na cana do leme. a bolina nas velas, com lonas de linho, varadas e remos sem vento nos baixios, até ao fundo do rio. a essência detectada na suspensão da circunstância é o núcleo da esfera intima, a forma intuitiva de quem convive com a vertígem da corrente. o rigor e a disciplina são a prova do apreço pelo movimento da água.
há que impregnar a imagem com a semelhança. detectar o parentesco e a cumplicidade no modo de encontrar o tom certo da voz, no propósito de desvelar a fisionomia adequada das coisas estranhas, o encanto que nos persegue, a fusão dos olhos no horizonte. um tom afoito no afrontamento. o dom permanente, mascarado nos momentos de impotência, a força da motivação, o prodígio da concretização dos designios mais íntimos. o enigma de uma voz oculta é a ousadia contra o espírito cativo. retomamos a resolução que faz do medo um hábito.
desprezamos sem despeito o que estagna o mundo, a letargia que o torna estático, o olhar ocluso, atordoado na massa de tanta desordem e incompreensão. a aparência transitória de compor a vida com espaços, com músculos e tendões postiços é o logro da tarefa inacabada. uma enfermidade de ânimo sem nervo, sem tensão que preencha toda a vida. a fase iludida (a fracção temporal) no quebrar do enguiço, na dúvida do adiamento que aguarda pela véspera de outro dia e muitos dias depois. e guardar com tão pouco e sem preparo o que não é de hoje, nem de amanhã, nem dos próximos que virão. de uma vida de espera que ainda somos sem agir num barco à deriva.
mas nós! nós sabemos para onde. ou embandeiramos em arco e chocamos de frente.
a criança molha os pés com água do rio, na fragrância suave da pequena praia onde desembarcámos. ponta d'erva deu forma a muitas memórias. na mudez das coisas fixas dos sentidos, deixámos de gostar das coisas de quando eramos novos. porque a repetição é teimosa como uma criança sem idade. é agora parte do horizonte mais claro do dia.
- ‘se fosses para lá da foz, irias como as aves que voam para o estuário...’
seremos nós capazes de ouvir aquela voz?

3

cada momento está escrito em nós como remissão da vida toda arrastada ao limiar dos tempos. é uma falha necessária, uma ausência que se alastra à totalidade no fundo de cada dia que passa. o acto ocasional de cuidar em fazer coisas é apenas a tentativa malograda de semear numa terra estéril. a memória não subsiste ao acaso, porque a inconstância faz da recordação um êxito precário. o lugar da impermanência é a contradição da fuga numa redoma. como se nunca chegassemos a ir embora, e estivéssemos sempre no mesmo lugar. querer ter agora o que foi preterido pelo esforço é assumir sem notícia o equívoco de um contrasenso, um lugar que nunca foi. tal como uma oportunidade desperdiçada que passa a ser um desperdício inoportuno.

há motivos particulares que agridem os espíritos que não são do campo, cuja impressão é absorvida por quem lá vive como a instância do que faz parte de uma extensão do temperamento, de um estilo peculiar de abertura ao mundo, à vida que nele se inscreve, que se impregna de corpo e alma num modo de ser. a aplicação de uma técnica adequada à bravura, faz parte do seu sistema interno, integra-se numa cadeia de continuidade nem sempre explícita. o domínio humano sobre a natureza só é válido na amplitude de uma revisão e de uma concordância que é aceite pela vida natural.
a travessia destas terras que percorremos criou desde sempre uma vocação de esforço e engenho. o pantâno que outrora inundava os extremos mais remotos da planície deu lugar a um ventre de múltiplas cavidades na conquista do território ao rio. foi um processo prodigioso de espanto registado nos autos da história, nos inventários da companhia e nos livros das miudezas de quem por cá viveu, nos imemoriais pergaminhos de sant'iago de espada.

a incumbência de um feitor resume-se a um breve conjunto de considerações - quando um homem é digno, tem a tarefa de responder verdadeiramente por si perante outros. é antes de tudo um servidor que acolhe os protestos caprichosos da natureza. o responsável pela sucessão de um território, transmissão e testemunho na lida constante com os veios orgânicos da lezíria. é a instância tutelar entre iguais e o desprendimento sobre aquilo que reconhece como provisório. um desígnio, com firmeza e sem contemporizar, de eludir o conflito com a terra e com os homens. mas fecha os olhos à socapa, ao furto das bolotas e do cascalho nos aventais das mulheres descalças. a atitude solidária de quem viveu na privação da fome. não é um homem sedentário dos papeis e aparas de caneta, nem alguém que trava a luz do dia com a mão protegendo o rosto. é alguém inquieto com as disfunções tortuosas do cultivo, que adverte para a incompletude da técnica. cada um como cada qual sabe de si. do lugar e competência que se conformam no compromisso individual, na diligência das funções colectivas, na precisão do desempenho de cada um dos membros e na missão de fortalecer o âmago da companhia. entre pares, um olhar é a integridade, um sinal simultâneo no acordo das atribuições. perante a adversidade, cabe manter a preseverança e a resistência do mundo em redor. a estrutura originária da vida que tem o seu modo específico de acolher tudo quanto acontece, na cadeia ininterrupta das estações do ano, na condição das aparições que renovam os ciclos, ao encontro das premissas do crescimento de plantas e animais. como uma forma de prestar juramento aos princípios da natureza.

4

a espuma nos freios dissolve-se na água que corre na foz. a cabeçada e as rédeas são tiradas para que os animais bebam. eles mostram-nos na sede o olhar benévolo, o corpo quase imóvel de que é feita a breve espera. só os pequenos espasmos nas patas e os movimentos da cauda afastam as moscas que os cercam. o pelo lustroso reflecte o brilho do sol e os maiorais aguardam com os cavalos que nos levam ao monte. uma romaria equestre louvada nos confins da lezíria. são homens consagrados à dureza do chão calcado de pó. no peso das feições que mostram o rosto trigueiro, a pele curtida, as pálpebras e as rugas contraídas pela claridade solar. escondem a testa pálida nos chapéus que empunham para saudar. mortalhas com tabaco apertadas na aspereza de mãos secas, encardidas de saibro. e foi preciso falar, reclamar um atraso na demora do reparo. mas o que em nós habita traz-nos sempre de volta.
com pés nos estribos e sela aparelhada, o avô monta o cavalo branco. tem a pelagem rasteira e a brandura de ânimo sem marca de esporas. todos os cavalos têm um nome que designa um temperamento. mas de que lhes serve o nome se ignoram a ciência incerta? de que nos serve abalar, com os passos elegantes do trote, se o cavalo não deter a plena estima que anuncia aos homens a aptidão do caminho? a natureza é matriarca. embala-nos à sombra da ignorância recolhida na divagação da sua inteligência soberana. pagamos o tributo de tentar travar o mundo sem resposta que nos preencha. na clareira extinta de um horizonte de incógnita.
atrás das nossas costas ficam centelhas de água e luz que se prolongam até lisboa. a norte vemos vila franca que nos alcança como se fôssemos uma aresta do triângulo. a distância crescente do vale mostra ainda o fumo das cidades no outro lado do tejo. marca o contraste das margens que percorremos, no solo que pisamos, nos antípodas de aglomerados de casas. ali estivemos e aqui estamos, debaixo da alçada do tempo. no calor de outono que tomba na sesmaria de arbustros secos. à revelia de uma terra que ama o silêncio, os ciclos húmidos e os ciclos da seca, do nascimento e da morte, que quebram a manobra da fertilidade que os homens engendram, o modo adverso da recolha da vida. ali estivemos e aqui estamos. na pulsão mundana, em comunhão com o que apaga a tristeza transitória na presença de gente nos lugares que escolhemos. a despedida sem o aceno. o relógio de bolso parado nas horas.
uma charrete traz a carga que veio connosco. leva a mulher e a criança, aos solavancos pela estrada de fendas no lodo seco e crateras da erosão da chuva. as poças de água são buracos do céu. e o chão a crosta que o protege. mas quando os cascos chapam na água, o lodo revolve manchas que se alastram de castanho e cinza no reflexo do azul tingido. há na carroça uma manta lobeira que tapa uma caixa esquecida com botões e um caderno vazio de folhas amarelas manchadas de argila. erguemos o mundo no papel amarrotado, conservamos o fôlego na definição das coisas, o encontro fortuíto inscrito nas palavras. o desenho das letras deformadas são a sentinela do que nos espreita, o modo velado da realidade que persiste, na confusa e desmedida transgressão.
- ‘cha... caha... chacoteca! chaaarnn... charneca!’
- ‘soletra e escreve! aponta tudo, senão esqueces!’ - diz a avó.
- ‘não te bastas quando queres dar-te ao mundo! ele chama por ti quando menos esperas!’
no esgar ofuscado pelo sol, a criança olha para a avó. não percebe o que ela disse. mas os cabelos pretos debaixo de um lenço e a pele acetinada do rosto altivo da mulher deixam a impressão de que ela não pertencia àquele lugar. de que o caminho arrojado nos confins da planície é um êxodo precário. que nem todos os caminhos são de pedra, de água, de ferro. de que o campo é o cativeiro que sustenta a solidão de quem quer viver num ermo. isolado do mundo e das luzes da cidade. foi talvez uma lamúria inofensiva. a voz embargada pela imagem de um apego inexistente. um sorriso dissimulado que se fixou na memória.
só agora, ao fim de tanto tempo passado, percebemos o que ela quis dizer. o passo-a-passo na ilusão de ganhar terreno e vantagem presta-se a afundar sobre si próprio. que o futuro não é a caminhada triunfal da novidade permanente. assumir um rumo de propriedade singular não causa algum nexo para nós visível entre a salvação terrena e o centro do mundo que somos. e nós somos como o animal tresmalhado do gado bravio a pastar nas ervas. não é o porte erecto e o olhar fixo do touro listrão que nos trava o medo da colhida letal. mas o chão que se move debaixo dos pés, mostra e esconde uma relação furtiva. o campo agreste é um paradoxo, um sistema de armadilhas. é adverso e generoso quando tira com uma mão o que deu com a outra. é o escondimento e o obstáculo. metamorfose e transfusão dos sinais que nos conduzem. para variar, a natureza é terrívelmente bela no palmilhar da distância percorrida pelo olhar. mas a proximidade vivida na carne, no osso e no tutano de que agora é para sempre, é a atitude de quem não passa da cepa torta. o tempo reconstruido dá um outro sentido ao mesmo acontecimento. a cidade é agora a última província. um claustro de multidão para quem os morangos crescem nas árvores. o reverso do mesmo sítio, do mesmo olhar. o lugar onde nos fixámos, esteja ele onde estiver, desmembrou-se na recordação.

5

caminhamos para dentro nos trilhos do mato que tolham a cadência contínua da marcha, a passada dos cascos, o rasto das rodas. entre as sombras dispersas e clareiras ardentes do clima do dia, retemos fragmentos da velha courela. a pose e o espanto das formas das árvores. a planura dos montados é vista de longe. uma coruja branca não avisa o olhar. voa em fuga assustada à passagem dos homens entre sobreiros dispersos no planalto remoto. as copas que escondem o retiro da coruja são feias, são espessas de pequenas folhas, grotescas, medonhas. o nó sinistro suspenso nos troncos. um corpo de ramos torcidos quase rasteiros ao chão. outras árvores há despidas de folhas nos baixíos na lezíria. nos ramos secos de porte esguío, pousam corvelos e o despojamento desolado do que é feio, grotesco, medonho. formam uma fila longínqua, inclinada pelo vento, tal como a marca pontilhada de linhas invisíveis que acompanham os ribeiros secos.
mas todas as árvores têm raizes. todos os homens têm raízes como as árvores. têm bichos que esgravatam, escondem névoa e vultos que acordam o mundo pela manhã. são o relevo saliente na terra que as sustenta, as membranas que aí crescem e frutificam. é o bolor dos fungos escondidos na madeira apodrecida.
no zambujal das oliveiras existem roseiras com espinhos bravios cobertos de silvas que vedam um pomar agreste dos furtos de frutas e flores que adornam a casa. onde os simples rudimentos das enxertias, as pequenas dores da incisão e do parto dos novos galhos das árvores são atadas com cordões de ráfia e sizal.
no maciço de pinheiros nós somos pequenos, como se mudássemos de dimensão e nos tornássemos anões no meio de gigantes e o mundo gerasse maior desporporção na vertigem de quando olhamos para cima e para baixo. a seiva da rezina é o sangramento de todos os pactos derramados com as árvores e com os homens.
a aragem no caminho levanta a poeira, o cisco dos torrões, das aparas das folhas, das cascas no chão que rolam num rodopio de fragmentos nos eixos das rodas. os caminhos dividem as herdades da lezíria com estacas de madeira e braçadas de arame. os atalhos que separam a baracha e a adema foram percursos de escudeiros desertados na cobardia.
nós somos o homem em movimento que é olhado na floresta pelo milhafre empoleirado. a vigia e o espanto dos pássaros, feito de cruzes de madeira e esteiras.
somos um pouco do que nos orienta nos espaços, onde ecoa o assobio estridente que chama pelos cães na caça às perdizes, e a trombeta que chama pelos homens com cavalos a galope que guardam a floresta.
sabemos da benção, da boa ventura das velhas mulheres do monte que velam quem chega ao antigo novo reino! já o prado vermelho das papoilas de unha negra e a casa no promontório são o vislumbre crescente entre as árvores do mato. um cavalo ferra os dentes na cançela isolada no meio do campo como se ele próprio pudesse abrir mais caminho depois do fim da linha. aqui começa para uns o que acaba para outros. caiem as esporas, estribos, pingalins de couro, pingos de chuva grossa nos dias de verão. os animais espojam-se no chão.
uma chegada é terna, acolhe calor. vale a demora do acesso nas horas que não sabemos da tarde. e as velhas cachopas beijam-nos o rosto, sorriem para nós e limpam o beiço escorrido de suor, com trapos brancos que têm na mão. ofertam a lã cardada de prata e o pão que comemos com nozes e maçãs. jasão morreu. toda a gente nos acolhe com um abraço que é ninho de cegonhas nos postes gigantes, a coruja branca que foge dos homens, o vôo do milhafre que olha para nós, que todos os dias são dias de espiga, de osgas, de vidas de gatos.
- ‘o primeiro da vitória!!!’
o primeiro da vitória é o que vende bagatelas, um torrão de terra com sulcos de arado nas botas de cabedal. é o maioral de cajado, do arneiro-milheiro-da-pedras-que-correm. é a criança o primeiro da vitória quando todos se juntam para vê-la chegar. e dá bagatelas aos bichos, torrões de alicante e açucar que se desfaz na palha guardada no estábulo para os cavalos.
mas na égide dos ciclos, o primeiro da vitória não é afinal o homem montívago, nem a criança que suja as mãos. o primeiro da vitória é a chegada do que está prestes a nascer. o primeiro da égua prenha deitada no estábulo, com olhar que é aflito, tragado de dor, como quem pede auxílio. como todos os primeiros, segundos e últimos vai chegar molhado e cambeta das patas. um poldro a pular na dança do pogo. as águas rebentam e a placenta cai na palha seca. o estábulo é iluminado com candeeiros a petróleo e cotos de cêra.
a água da sabonária corre para o chão e as mulheres deixam a roupa a secar enquanto enchem uma caldeira na lareira da cozinha. as ferraduras na bigorna e a forja do ferreiro deitam fumo de vapor da água vertida. na água morna da caldeira estão molhos de ervas, que escondem respostas até hoje estranhas.
o cheiro da erva tenra recolhida num ramo protege o augúrio do bem contra o mal. o preparo das safras, dos tratos nos espíritos, é o dom e a queda nas graças manhosas, dos sortilégios das mézinhas das mulheres idosas. o rosto é dócil, o corpo compacto com xailes escuros, que mostram as mãos, os gestos atávicos, a orígem das forças, das receitas das ervas, na captura dos maus-olhados, dos quebrantos das colheitas e buchos revirados dos recém-nascidos. recitam uma ladaínha do lendário responsório. incitam paixões no sustento das terras na força animal depois de pousíos, recobros, refluxos. só a humildade das velhas mulheres trava a queda da folha votada ao esquecimento, a abolição do equilíbrio em retirada, expremem sucos arcaicos da hera do campo e ervas daninhas. são parideiras e mães e bruxas.
- ‘passo a fronteira de manchas fecundas impressas no solo, cravadas no espírito. dou ordem das coisas benignas, malignas, queixumes e prantos, enguiços quebrados!’ – lido no papel, antes do sainete do coro.
- ‘se partes o galho com o peso do corpo, a ti não te valho, cais tu e o teu corpo... cuidado homenzinho, pois medo não tenho, aguça este engenho, com o tento na lingua, se não queres a mingua, de peso e caminho... não meças terreno, que tentas pisar, o teu tino é pequeno, aprende a pensar... o que está embuchado, é o mesmo que expias, em ti entranhado, que a outros dirias... com azia e o dreno, no bucho a mirrar, do teu próprio veneno, vais poder provar ... pois agora cuidado, que vão transtornar, o teu corpo quebrado, vais mesmo penar... e na justa vingança, de um homem trair, a mulher faz a trança, da terra a parir... e sã é a cria, que da mátria sai, a luta do dia e a troca do pai... e a garupa trocou e feliz ficou, a égua malhada espojou no pernil, a todos os santos promessas eu dou, janeiro em quebrantos, colheita em abril...nos sinais dos meses prolonga o responso, p’ra todas as rêses de bandulho insonso...’ – recita o desaforo das velhas mulheres e os candeeiros e os cotos apagam-se com o peso do vento a correr no estábulo.
uma reza, um sussurro do coro de mulheres, é como o som das aves nidificadas que pedem com fome aquilo que elas próprias regurgitam. o som das andorinhas que ouvimos lá fora é suave à passagem pelo ar, distingue-se dos estorninhos-corta-ventos, dos pardais cinzentos que picam os pêssegos chochos pendurados nos galhos.
um cheiro de uvas fermentadas, acolhe o travo do mosto de vinho, na conversa inacabada dos homens à porta do estábulo. os grãos de açucar espalhados na palha vão tirar o quebranto do destino febril de quem brinca com a vida. as mulheres cançadas voltam para casa sem resposta no final do verão.
apenas alguém fica a olhar para a criança escondida no meio da palha furtada das atenções.
- ‘quem és tu?’

- ‘és rosa ou guadalupe. em cada uma das pétalas. nem pareces a mesma que vi quando eramos pequenos! era a ninfa na infância que foge de nós, tal como a estátua que vimos de manhã. e tremes lacrimosa com a cabeça molhada, vestido de alças e folhas verdes, uma cortina branca entre o sol. a verruga no teu joelho que toco como um segredo só nosso e pergunto se era como a casca das árvores. enquanto ouviamos o coaxar das rãs, e ao longe o teu pai chamava para o almoço. e escondiamos o tesouro da caixa de botões e lá dentro também um mapa a fingir numa folha rasgada do nosso caderno numa cova perto da figueira grande. e comemos todas as nêsperas maduras e mandávamos os caroços um ao outro. inventávamos as guerras que tu sempre ganhavas. e fugiamos de triciclo de madeira entre a seara de trigo prolongada na encosta. todos os dias eram dias de espiga, gafanhotos, cigarras, falenas, vidas de gatos. e entrançavamos as crinas dos cavalos e jogávamos à espada que tu sempre ganhavas. inventávamos histórias de fantasmas nos silos e esconderijos de insectos com folhas das árvores. e faziamos cidades com pedras de seixo. protegiamos os formigueiros com fortalezas e pontes. deixavamos migalhas de pão seco e folhas de alface da horta para que elas comessem, que as andorinhas levavam para os ninhos dos silos. as nossas mãos cheias de bagos do ardor das urtigas. as pernas esfoladas e arranhadas dos cardos. o nosso reflexo no fundo do poço que a avó não queria que fôssemos para lá. e atiravamos marmelos podres para o fundo do poço e olhávamos os rostos na água com lismos como quem dança frente aos espelhos das feiras. e mergulhámos os pintos no alguidar com a água que chorei quando vi os olhos cerrados dos bichos e os bicos abertos onde sopro para dar-lhes fôlego e a galinha careca pica nos tornozelos, e o galo careca da crista flácida, tufa e sacode as penas do peito. e aflito chamou num pranto a avó e o senhor da horta, que os pintos morriam e que estava com medo. e eles levaram os pintos para junto da lareira e na manta lobeira que os aqueceu...’
- ‘pronto! não se rale mais que os bichos estão bem! não faça outra igual, pois se o seu avô sabe...’
nunca mais a criança veria aquela mancha sensível no joelho da menina acanhada. ela é hoje a falha necessária da ausência. o ponto de fuga e remissão para a vida.
–‘hei-de chamar por ti – rosa ou guadalupe - e procurar-te quantas vezes forem precisas, que o tempo não é de espera!’

nas palavras fortuítas da circustância sem expectativa de nunca mais, o pensamento integral, é hoje vivido nas fracções. fala-nos por conta alheia do espaço e tempo que deu forma. ensina-nos que sem algo de sublime, nem que seja apenas um cisco na terra, não pode o homem sair da infância para afrontar a vida. se conservar na alma o vislumbre do mistério desse cisco, ele foi aventurado.
o que foi fácil, nada fêz crescer. encravou-se no esquecimento. tal como o tronco da árvore solitária que se expande no olhar profundo da lezíria. que mesmo nas fissuras grosseiras da casca, devolve o esplendor da dicotomia: de que a prostração é talvez um modo de ver devolvida a integridade. se uma árvore falasse dir-nos-ia: começa a aceitar uma derrota com a cabeça erguida e olhos no horizonte. e se assim fôr, verás que estas árvores nunca se abatem pela vontade humana. se uma árvore falasse diria: ‘não tenho medo de ti!’...

© miguel pessoa vidal / cavalos no gelo 2008



as possibilidades, as apetências e as aptidões das formas são compreendidas enquanto elementos de uma conveniência, do dar conta e da legitimação da natureza. trata-se de uma determinação dimensionada na subjectividade e que emerge na visibilidade. como entender a totalidade e unidade de todos os fenómenos que nos interessam para o efeito do nosso trabalho senão a partir de uma doação que não está situada no objecto que temos diante dos olhos? porque o objecto não assume senão a forma da visão. o estilo e o contorno do visto são já uma emanação endógena do que visa. não corresponde a uma unificação a partir de um entendimento. este não unifica. uma doação que notifica e legitima a harmonia que sentimos pelo mundo é uma faculdade. o que configura uma certa compreensão, proporciona uma certa ideia do conhecimento, a perfeição, a expansão e a ordenação máxima. uma conecção. a promoção e a convergência de uma certa ordem de conhecimento corresponde a um foco de não indiferença, porque integra desde logo o projecto que envolve a existência. corresponde a um interesse de que nós precisamos para fazer convergir as linhas directivas de todas as regras. a imaginação é aqui a produtora de ideias, um modo de actividade.
encontrar uma outra natureza é um modo de competição da imaginação com a própria natureza, trata-se de uma extensão de variações, dá-lhe uma ajuda a compenetrar-se nos seus meandros de diversidade. a arte faz em concreto o projecto da imagem, faz proliferar a forma. uma ideia modelada, plástica: o cavalo no campo, os cornos hasteados do touro bravo, a poeira sobreposta à luz do sol, os rumos terrestres das margens que acompanham a várzea, o curso do rio, o corpo qualificado, o movimento e a velocidade, o desperdício da variedade cromática, a exclusão progressiva de determinações... mais vale para o efeito "modelar" do que discursar, porque o primeiro acto corresponde apelativamente a uma ordem de discurso, uma linguagem não verbal que instrumentaliza, compõem, manipula, dispõem de uma sequência, constitui um processo. mas de uma forma ou outra não se abandona o que consideramos um preceito: a lingua materna, o regime de forças que faz expandir os ritmos de viver. a natureza faz fluir todas as imagens originárias que estão na base de constituição de todos os particulares. a natureza cria mas não reconhece e como tal seremos nós os emissários para a consciência e aceitação da natureza com ela própria. é a imaginação humana que qualifica a aceitação do universal da natureza em nós. a imaginação concebe ideias técnicas, engendra os horizontes. e este é o infinito da imaginação.
a integridade do ânimo, quando consegue reconhecer as suas disposições como variações e tonalidades inanuláveis, torna-se indestrutível, das gemüt, a reúnião de todas as forças anímicas corresponde a uma experiência extrema assente sobre si própria, o conjunto vivo da experiência humana de todas as suas condições, quaisquer que elas sejam. corresponde a uma profusão que anula aquele despeito do espírito embrutecido do entendimento que mirra perante a inocência insuportável da criação, porque esta detém, sem esforço ou obstáculo exterior - é ela própria força e tensão original - a relação orgânica, viva, de todos os conceitos com todos os conceitos, na ressonância interna do que há. a matriz de todas as relações. o discurso liberto dos constrangimentos do entendimento é de tal modo furtivo e mais veloz que a esgrima entre duas sombras. só nesse regime poderá corresponder a uma relação "adequada" com o referente. está adjudicado à faculdade de criar, pressupõe uma abertura a regras cuja legitimação do seu modo de proceder é interna a elas próprias. um equilíbrio que se projecta, que não dispõe de palavras surdas, mas orienta. é um foco imaginário cuja presença é operativa. por si edifica e resplandece os mundos anónimos em que nos revemos. um engenho unificador da diversidade. a continuidade da forma corresponde a andar à procura de firmar um caminho mais denso que nos prepara para a possibilidade certa de amar e respeitar. aquilo que habitualmente designamos por arte não é nem nunca foi uma imitação da natureza, mas a transfiguração consistente desta numa consciência de si própria. só a aleivosia do imitador torna-se no equívoco e na asna insistência de encontrar um conceito atrás do interesse, ignorando que é este que o pressupõe.

cavalos no gelo
(poema de tamara ramos)

percorrendo mares insanos na velocidade de uma rota única
trazendo nas costas homens de aço
os cavalos do gelo cavalgam majestosos
ante a fúria implacável do grito mortal
do excesso de liberdade e total domínio do tempo

molhando os pés cruéis a desatar amarras profundas
seguindo sempre em frente longe da culpa faminta
o vento forte do topo polar rompe crostas frias de medo
e nos leva em silêncio aos limites de um abismo interno

veloz também é a raça humana
evoluindo em turbilhão e fogo
capaz de reter apenas um verso da história de ontem
e caminhar sozinha no litoral sem fronteiras

os cavalos de gelo habitam a noite fugaz
transitam em bando, aos bandos explodindo em luz
e quando o sol nasce indicam o caminho
a todo forasteiro imune ao desespero e ao previsto caos.


obrigado tamara

este e outros magníficos poemas podem ser lidos na página da poetisa tamara ramos

uma alegoria, um modelo de parábola tanto pode ser um modo operativo de inscrição do sentido como, ao invés, um modo de despiste da compreensão de aspectos da vivência. assim é porque assume uma forma divergente com o sentido comum da palavra. uma das múltiplas manifestações da ironia, talvez na acepção que se presta a uma maior proximidade com o seu significado originário. uma ilusão que não se toma a si própria como tal, mantém-se indeterminada no plano da sua ausência, é como se não existisse como ilusão. uma vida plena de "como se". parece que o que a notifica é uma breve suspensão - com prazo à vista - dessa indespedível condição de má-fé, a clareza opaca do divertimento que nos apropria ao curso dos acontecimentos, na protecção das vagas que atravessam o caminho.
mesmo quando julgamos que o mundo já não é o desejo breve na cadência das aparições - inanidade e dispersão na multiplicidade das suas facetas - permanecemos na esfera de pertença ao velho sítio que nos abriga. fechamos com uma chave dourada e contrafeita a gaveta mágica desse local. a última expectativa é afinal a instância provisória, a dobra do apego constante que acompanha um novo salto, embalado pela repetição dos passos soltos. guardamos nesse lugar o acontecimento especioso, as conjugações e a representação, o labirinto inscrito na memória, na instrução do dom inquieto da palavra futura. um interstício exclamado na pequena filigrana do silêncio não cobra os seus préstimos se souber esperar pelo momento oportuno para soltar a voz.
aguardamos pelo regresso do filho pródigo, aquele que esbanjou os seus haveres na terra da penúria, que na nudez dos momentos de abandono e dissolução, no esgotamento dos seus palpites e das suas apostas francas, deixa ao longe os restos para os porcos e segue em frente, porque o desterro e o lodo não são a sua casa. nessa corrente imprevista de impulsos e travões do tempo, só um decreto do destino dita o modo como as regras apuradas dão continuidade ao rumo que foi tomado, a resistência permanente dos desígnios, o calibre, o alcançe e o valor supremo dos recursos, numa escala hierárquica. o elo que nos liga, a presença discreta mas confiante, é a resposta dada contra a escalada da violência afectiva. há sempre a possibilidade da reserva prudente que não fica toldada pela mania da suspeita, a perseguição compulsiva e delirante. ensaiamos, apesar da surpresa, uma disposição advertida contra a esperteza do disfarçe: uma matilha trajada com a lã do cordeiro. auf einen groben klotz gehört ein grober keil!
mas a perseverança é o nervo, a corda tensa e dedilhada, é o freio e as rédeas, a aptidão na destreza do equilibrista, a manobra do prestidigitador que joga com alegria. mesmo uma vontade férrea só triunfa quando persiste nos meandros que a tentam quebrar, mantendo-se serena no prendimento da tensão. é o augúrio da abertura e de um desfecho adquiridos na paciência, o golpe definido no lamento do que não foi o que poderia ter sido, a cantilena e a elegia, a ênfase simulada pela vítima compadecida na ocultação da sua culpa, a manipulação pelo tom da voz, na doçura traiçoeira e desleal, que enfraquece a forte gente.

luminária do crepúsculo. numa tarde de domingo de agosto, a visão da adema foi a passagem do dia glorioso, a manifestação da conduta mais gentil da oferta do tempo, do olhar generoso que não espera mais de si que o seu próprio acontecimento. são as pequenas colinas que se estendem para a terra plana da lezíria: da amoreira às fontaínhas ergue-se um vale que foi outrora o pântano e a margem extrema do rio. é um enigma das formas que se repetem, que tocam as imagens invisíveis e os encontros felizes marcados por cambiantes, pequenos movimentos, pequenas percepções que aguardam o momento oportuno para expandir. um desperdício de coisas que existem mas também um sistema onde tudo está no seu lugar. a natureza que nos apela não é enganadora mas transparente para si própria, está certa do seu sentido e das suas dádivas. dá sinais velados do brilho à mais selvagem das criaturas. são os vestígios que designam o rumo que ultrapassa a notícia do que é para nós pouco mais que astúcia. e o que há nessa manha da natureza não é senão o que é para si a sua doação mais autêntica, a pureza em excesso de marcas na exclusão das aptidões humanas, que se converteram por sua vez na inaptidão em compreender o seu estilo, em acompanhar o seu ritmo nos compassos certeiros do tempo. a tradução desse sentido começa por ser dada na distinção dos pequenos pormenores: na presença circular das trepadeiras nas arcadas da casa, são guardiões da porta um vaso com sardinheiras entre púrpura e vermelho, e um outro vaso com patas-de-cavalo tão luzidias que quase parecem espelhos. e logo surge à vista o velho limoeiro nos contrastes do verde-escuro e do verde-claro com o cheiro das formigas no verão seco. depois dos passos, é a sombra da figueira gigante, de longos anos fraterna das ramagens do sobreiro robusto que protege a casa da contra-luz. na descida da pequena encosta a caminho do poço estão as oliveiras. ao fundo, de costas para o sol, avistamos a adema, a silhueta de uma outra casa numa ilha de árvores, no meio da lezíria que corteja o nosso monte. as ondas do feno projectam-se até lá na pequena brisa do estio, porque o tejo oculta-se na distância, é agora uma chama mais estreita do céu aberto. a imagem singular concentra por antecipação o olhar livre dos constrangimentos. mas é tambem um modo de aparecer com um poder transformador. não é uma poesia na poeira das circustâncias e nem uma terra semeada por nostalgia, muito menos a dissonância da promessa integral da vida. é apenas um momento na inscrição eterna de uma visão. a pequena iluminura no início do livro.

a respeito do anonimato. cavalos no gelo não são um expediente para esconder uma identidade. isso seria uma forma insidiosa de provocar a curiosidade sobre o que não tem nada de fascinante e reverter no contrário daquilo que realmente se pretende expor neste projecto. o que um autor quer dizer, é somente a forma própria da obra que apresenta. se quisesse dizer outra coisa para além daquilo que disse, tê-lo-ia feito sob a forma de apresentação de outro trabalho. neste sentido, qualquer declaração a respeito do que faz é já uma parte integrante do resultado do seu trabalho, é inerente e está pressuposta, não é um apêndice ou uma adenda superveniente ao seu ofício. a vida de alguém - a biografia - como modo de explicação e compreensão de um trabalho é um modo de exposição que se presta a equívocos. a propósito da justificação do significado e da designação "cavalos no gelo" como titulo de um trabalho que é individual, de encontro de vontades e de motivações, surge uma pergunta como resposta à pergunta original: que sentido e que significado é esse que tem uma construção que consideramos que é poética (porque se trata de uma produção que tem as suas raízes numa vivência, trata-se de um modo de construção da realidade a que pertençe o autor) quando o titulo "cavalos no gelo" é apenas um tema evocativo de um lugar fantástico cuja distância palmilha sempre o chão que se pisa, que a despeito do pequeno delírio, não emerge, sem mais, da miríade de possibilidades da imaginação, mas cuja visão retém no tempo a memória de acontecimentos reais? um modo de construir uma história e de fazer história ao modo de um balanço da existência, de procurar reconstruir o passado através de uma posição peculiar no presente, é um pretexto para transfigurar o olhar, um modo de avaliar o inconsistente acesso de que dispomos. o que é mais específico do autor, ou da autoria, é sempre anónimo, é o que lhe corresponde: o resultado disto é a essência do trabalho que apresenta. o nome do autor, a sua vida, não são relevantes porque não são passíveis de uma forma de exposição adequada, em próprio. enquanto um no meio de todos e de ninguém, o autor permanece no domínio do anonimato, porque também ele tem um negócio prosaico com a vida de todos os dias, alimenta-se e prende-se às circustâncias vulgares, as vicissitudes que o situam no quotidiano. ele não é uma novidade permanente que se move na aparência. o exercício da novidade reverte-se contra si próprio porque é efemero, não permanece constante na persistência dos dias, é volúvel. o fascínio da novidade é apenas uma forma de alimentação do tédio, um expediente da repetição própria do fenómeno da moda que se esvái do mesmo modo que surge. no mesmo passo contrafeito e silencioso do esquecimento. é talvez por isso que aquilo que se designa por figuras públicas seja uma sucessão de mentiras permanente, para elas próprias e para os outros. uma rota de colisão entre a ilusão e a desilusão preenchida pela ausência, cheia de vazio. porque o peso da exposição faz sucumbir a emergência de aparecer. o domínio público é sempre anónimo porque a aparência da intimidade está aquém da essência da identidade. além disso, o privado não é sinónimo de secreto, ao contrário do que nos querem fazer crer todos os dias, como se a exposição da privacidade fosse um imperativo social próprio de quem não tem nada a esconder. um modo de estar na vida completamente doentio, porque a patologia da exibição não encontra adequação com o conteúdo da exposição. cria-se uma descontinuidade, abre-se um fosso a partir do qual emerge a saturação e o ridículo. um pretexto que faz entrar em cena o humor como antídoto da afecção patológica. é a cobardia a sussurrar o escárnio e mal-dizer.
esta posição não é irredutível a uma dimensão que começa e acaba em nós. há uma dimensão específica do homem, na sua dimensão pessoal, cuja posição dizemos que é absolutamente privada [como espaço de ressonância interno que é, o interior humano tem essa forma própria do privado, não são como as vísceras (exteriorizáveis), não é um interior exteriorizável como o de uma pedra, cujo interior pode ser partido e mostrado em partes que passam a ser exteriores, uma espécie de reduplicação do interior em exterior e por sua vez em novos exteriores, em que o mostrar o interior da pedra é já uma forma de exteriorização]. acontece que o que é próprio da vida humana, a ressonância a que chamamos alma não é uma pedra. afirmação do óbvio: todos nós temos um interior que é habitado por nós próprios. as coisas comuns surgem como se estivessemos em nós. a exposição artística, ou poética, é considerada como o modo próprio da exposição da interioridade, o processo de produção interna que transfigura a realidade que vem até nós. é esse o modo próprio de abertura a um mundo que não estaria disponível para nós de outro modo.

confrontamo-nos por vezes com situações cujos contornos estão esfumados. como numa noite em que todos os gatos são pardos. a despeito de um registo que procuramos inscrever - porque a memória é falível - o resultado nem sempre surge de feição. se considerarmos que o modo de pensar funciona como a imagem de uma espiral, dir-se-ia que ela nem sempre gira na direcção e no ritmo correctos, sejam quais forem os critérios dessa correcção. desta vêz foram quatro os rascunhos que emergiram. são apontamentos avulsos de um dos "livros de miudezas". estão à espera de uma justificação e de um apuramento mais rigoroso, sem saltos e sem atalhos. mas serão apresentados tal como estão para poder ser estabelecida uma diferença, um termo de comparação com os restantes textos que aqui se publicam. falta-lhes alguma unidade, ou talvez não, porque muitas das suas passagens constituem pontos de intersecção com outros textos que deram origem a desenvolvimentos que aqui se apresentam. são a sua raíz. as palavras e as frases têm, como é óbvio, um referente preciso. não são uma sequência automática, aleatória ou subliminar do que não foi esclarecido nem resolvido. mas enquanto são esboços grosseiros, incipientes - porque por via da preguiça ou de alguma impaciência não quiseram aguardar pela definição dos contornos - funcionam como um trajecto solto de tentativas, como que sedimentadas num depósito do laboratório das experiências (a tentativa e o erro). a utilidade destas notas é de pouca ou nenhuma relevância, a não ser para o próprio que as escreve. surgem como um registo da memória a ser utilizada em ocasiões futuras, talvez mais proveitosas ou de uma outra ordem de inspiração, se é que está aqui presente. oxalá possam tomar outro rumo, um processo que está em aberto. constituem como que uma recolha que pode ser convertida nas mais diversas possibilidades:

identidade mítica
a identidade depende de um tempo que já não decorre. num tempo em que tudo o que queria ser foi não ter sido o que deveria ser. um tempo é mítico quando a história não o engloba como qualquer outro. apesar dos factos não estarem colocados nesse tempo. os processos do nascimento correspondem a um tempo mítico. o primeiro homem é mítico. o seu aparecimento não é o nascimento de ninguém. o aparecimento é um tempo mítico, é uma emergência. o mito tem uma estrutura determinada, é um tempo não actual. o fundamento mítico dá-se como um acontecimento ocorrido, que não é o acontecimento hic et nunc, aqui e agora. todas as explicações constitutivas remetem para um tempo que não está determinado pelo tempo de que se procura determinar pela explicação, extravasa-o. a minha identidade depende de um tempo que ocorre. estamos constantemente a comprovar, ainda que inadvertivamente, quem somos. o surgimento do homem é mítico, (não) um processo estrutural narrativo. é mito porque é uma narração de uma determinada forma. o humano distribui-se como ente natural em culturas, história, pensamento, artes, etc. todos os homens são qualquer coisa para si próprios. a natureza humana deve poder identificar-se.

o espaço interior
é uma compreensão própria do homem enquanto ente natural. é uma conçepção que tem a ver como uma sucessão livre de acontecimentos. o interior tem a ver com uma sucessão de variações. na exposição do mundo exterior existe paralelamente exposições do mundo interior. tem a ver com sucessões que relacionam-se com o mundo comum, que em princípio não o obstroi. ter interior não equivale a estar dentro, mas equivale á possibilidade de estar de fora. não há espaços interiores. o interior do fenoménico - como uma pedra - é ainda exterior. uma recordação é um acontecimento interior, tal como a dor, não tem uma radicação distinta. não é visível, indicável, passível de exposição directa.

o tempo
o tempo é mais fundamental [porque o interior não é espacial. sendo uma forma temporal não é mostrável em partes exteriores do mesmo modo que é a pedra]. o homem é uma espécie de caixa de ressonância e de retenção do exterior. um poema tem em cada um uma concretização, cada sujeito é uma forma de ocorrência em cada coisa [acontecimento de lucidez, um fulgor intimo não transmissível].

o corpo
o espaço de ressonância tem delimitações: o corpo. faz a transição entre o interior e o exterior. tem uma significância nas suas dimensões. o corpo é âmbito de ressonância interna e o mundo exterior. o que define o meu corpo. define a possibilidade de um significado que pode estar mais ou menos definido. sabemos quais são os limites do nosso corpo. é um problema do meu corpo que permite a possibilidade interior. na medida em que o meu corpo define o espaço natural de ressonância interna, o meu corpo define um espaço natural. os homens habitam o espaço de uma forma completamente diferente.
o sujeito pode estar deposto em posições espaciais sem receber o espaço que o rodeia. estar distraído significa um acontecimento que passa por mim que não me apercebi que passou por mim. a recordação é como tal porque corresponde à realidade real. o sonho é um mundo ao lado do mundo. a imagem é imagem porque interpretada como relação com a realidade.a dor é real quando tenho um acesso sobre ela. ter ou não ter dor real corresponde à necessidade de manifestação externa.o homem era entendido a partir do mundo, do anónimo. as outras posições são reais. o termo homem compreende-se, mesmo naquelas partes em que o homem está colhido em si mesmo.

apesar de um mundo comum e anónimo, cada um de nós tem um mundo interior, um espaço mágico, invisível. ainda que sejamos um ente da natureza, o interior não é possível de encontrar. mas também não é um gesto perdido no meio de nada, uma mera ilusão. corresponde a um momento de ser o que se é, uma visão na mente, como por exemplo, cristais de gelo, desenhos a carvão com os contornos do rosto humano, os cavalos que drenam o chão com os sulcos dos cascos, a velocidade que embala os homens, a recordação das crostas de cortiça, do cascalho das pinhas e de folhas secas no chão, o orvalho da manhã nas ervas. o interior não é o passo de uma vida sem rosto. não há nenhuma descontinuidade no espaço, este é homogéneo e contínuo, sem fissuras. mas há um espaço de ressonância, uma suspensão que transcende o espaço, que é o interior. uma hora é anónima mas tem uma ressonância, pode ter ritmos diferentes, pode ser mais lenta ou mais rápida. a vida apresenta-nos esses multiplos recursos, tem os seus disfarces caprichosos, dos quais apenas dispomos de um vago pressentimento porque estamos ocupados em permanecer distraídos, num labirinto de direcções que caracteriza a nossa situação, no meio de veios e de circuitos que dão para encruzilhadas, às cegas relativamente aos seus contornos.
as nossas disposições determinam a forma como somos afectados pela realidade. o real em si é sempre o mesmo, mas pode ser apreendido diversamente, conforme à diversidade de sujeitos que o apreendem. corresponde a uma concretização do sentido que é sempre formalizada na primeira pessoa.
apesar de sermos um animal imprevisível, o mais normal à convenção das nossas disposições é como o exemplo que pode ser dado a respeito de uma bailarina que milagrosamente curada de uma paralisia se sinta numa disposição ascendente e um recém desempregado se sinta ao invés numa disposição tenebrosa, em desagregação, submersa pela precaridade.
a disposição do sujeito funciona como uns óculos. ela é responsável pela forma como o sujeito vê o mundo. aquele que se encontra numa disposição optimista não encontra obstáculos ou realidade (fealdade) que o perturbe. aquele que é disposto de forma mais surpreendente a respeito da precaridade do chão que pisa, está submisso à incapacidade de conseguir alcançar objectivo algum, está rodeado de enormes obstáculos. assim também vêmos o mundo em cores determinadas pela côr dos óculos. as disposições, são modos de inscrição de sentido que utilizamos. mas há sempre a excepção à regra: constatação, ou juízo de valor, por vezes não são mais que uma venda nos olhos, mais uma à mercê do anónimo!

uma visão oblíqua sobre a natureza - o interior das coisas por revelar - o aspecto como as coisas do mundo natural remetem para o mundo humano está revestido de um fenómeno de significação. existe já o que podemos chamar uma conversão do olhar, que não é tida como tal porque assume a forma velada da distracção, está caracterizada por modos adquiridos de reconhecimento mais ou menos peculiares: há uma espécie de evidência automática de significação, em que o modo como olhamos para a natureza é um modo com sentido regular. a forma como vemos a corrente de um rio, as folhas das árvores, o crepúsculo na queda do monte, está impregnada de hábito, repetição e expectativa em que o olhar naturaliza e apaga a significação. o nosso carácter inventado é o carácter inventado do olhar em que o mais ténue compromisso com a natureza é simplesmente o modo de convertê-la na sua própria unidade, na unidade ténue de significação do humano. ao naturalizar apaga-se a significação. olha-se como acontecimento inventado. vive-se num quadro de apresentação dominado por significações. a ordem natural do humano corresponde a um plano de apagamento de excesso de sentido, no hábito dos dias. o desenho de um contorno e o esboço de um perfil, o preenchimento do contorno como um tesouro é tomado como uma tarefa de excepção, uma variante de inscrição fora dos eixos. torna-se num segundo modo de regularidade.
em certa medida, um modo de restituir a aliança que temos com a natureza e que nos permita fortalecer esse elo frágil, corresponde à anulação da expectativa malograda da significação, através de um modo de testemunho que ainda está por definir. remeter para a possibilidade de um olhar surpreendido, pôr em evidência um olhar de contraste no meio por onde nos movemos corresponde a uma tarefa que está em aberto. sem essa possibilidade de anular a incapacidade de contemplação e de pisar o chão desse reino, vamos ter de olhar para a natureza com a memória de ter sido nossa de outro modo. uma lembrança sem preenchimento de contornos, na distância de um perfil.

correremos o risco de cometer o mesmo erro, e caír no velho contrasenso, mas queremos ficar advertidos no caso de acontecer o inevitável, que é não passarmos incólumes ao exame da "chuva de pedras", pelo simples facto de sermos humanos, na fraqueza e na frouxidão, na modéstia que pede aplausos, na arrogância de querer ser simples perante o olhar alheio. uma carestia do carácter. tanto faz ou talvez não. também não é credível que alguém possa ler e deter-se no que aqui se escreve, mas também isso só pode ser constatado depois de ser feito um percurso. à partida, parece que uma voz distante permanece inevitavelmente distante, porque é uma voz que fala para as estradas. mas só à chegada recolhemos as devidas ilações. talvez umas notas soltas a respeito de uma espécie que está no plano inverso da extinção sejam irrelevantes. não importa: seja qual for a árvore ou a raíz, venha ele de que galho vier, o plano privilegiado do indagador, o autodenominado homem crítico, é hoje alguém para quem uma miragem remota é sinónimo de ver o que há para ver com olhos de ver, sem estar a ver o que quer que seja. um fariseu dos tempos modernos. sem despeito, porque está a chover no molhado. é como comparar a visão humana com a escala de alcançe dos olhos de um falcão e fazer disso sinónimo de ambliopia. uma falta de acuidade, só para quem reclama subtilezas e uma tal dose de perspicácia, quando na maior porção dos dias são precisos óculos para ver o que se tem à frente dos olhos. nada de relevante porque a questão passa pelo crivo do crítico como se nada se passasse, desertos de areia peneirada: uma peneira que com a qual ou sem a qual, fica tudo tal e qual. é por vezes surpreendente o modo como é explanado o óbvio sem a advertência do contrasenso. quanto mais sério o tom de voz do discurso, maior a gargalhada. mas isso será só conversar nos salões, fazer nevoeiro com o fumo do cachimbo e atirar a disposição espirituosa para o limbo do esquecimento. ficar aquém das candeias às avessas provocadas por séculos de ironia. torna-se, no mínimo, peculiar descrever o modo como se alimenta o equívoco da estupidez de um discurso recorrente num certo tipo de meio social demasiado ocupado com o capricho da sua glorificação, a respeito daquelas "questões fundamentais", a patente dos privilégios, os patamares tremendos do conhecimento, os domínios avulsos em relação ao que pesa e prende na vida de todos os dias, a captação da influência, o caso de uma conversa inóqua sobre arte ou política, et caetera. num pano de fundo há a converseta e a crítica, a contradição nos termos, porque o fito de impressionar deixa de fora aquela divisa de que sem reconhecimento não há verdade. mais do que uma divisa, é uma tarefa difícil, uma carga de trabalhos para a mentalidade genérica dos profetas da actualidade. haveria mais para escolher, mas fica para outra ocasião. a posição do discurso é sempre abreviada, e como tal, não é crítica. mas fazemos desde já uma vénia em admirável reverência e enviamos a toda a colheita de militantes os nossos mais respeitosos cumprimentos e as nossas mais cordiais saudações. desde o agente dessa espiral de cultura narcisista ao artista ordenado, do politólogo ao seu patrono, o homem crítico, o indagador da inanidade de factos surdos, o censor da ausência de todos e de ninguém. uma espécie de cavalaria sem cavalos que demanda na terra da distância.
o cinismo pode ser um modo peculiar de focar um defeito, uma variação do despeito ou então o pretexto de manifestar o desengano. um cínico é um indivíduo que se desiludiu. mas nem sempre diz a sua deixa e depois vai-se embora. não será que reside nele uma vã expectativa de possuir a bitola da medida certa de todas as coisas e querer ver de fora o mundo à sua altura?! parece que não dá muita luta ir afirmar a individualidade para o deserto. isto para falar de exemplos comuns acerca do melhor modo de fazer propaganda de si. o assunto fica de tal modo sério, que se torna necessário apoiar o queixo com o polegar e com o indicador colocado ao lado da boca, para sustentar o peso da cabeça coroada de ideias vazias. e como é conveniente nestas ocasiões, pensa-se melhor sentado: sentemo-nos e cruzemos as pernas, antes de abrir o jornal e assistir ao heroísmo de afirmar, como diria o nosso romancista cujo bigode ficaria mais afiado se convivesse com os dias deste século. como se o mundo se dividisse entre aqueles que têm o exclusivo da posse dos meandros e dos labirintos da sabedoria e os que ficam de fora, a massa informe do pagode sem privilégios. ambos permanecem no anonimato. mais uma vez a divisa: a verdade dá-se por reconhecimento e sem essa forma de identidade toda a composição do discurso é um processo que paira na virtualidade do simbólico, pouco mais que ruído. a tarefa de um indivíduo que investe o seu tempo a escrever, a compor ou a pintar não descarta o testemunho. anula o seu trabalho se toma a atitude de alguém que precisa de uma audiência para lhe dizer que não precisa dela. atitude só por si já reveladora de uma aberração, em completa descontinuidade com as virtualidades que se pretendem tornar próprias. a desproporção entre o que se diz e o que se faz, num modo de estar presente perante alguém imediatamente denunciador do seu contrário: tomar os outros como um arraial de vassalagem da adoração da majestade de si. espantoso o empenho interessado no investimento de assuntos que não têm nada a ver com quem os profere (ou mesmo connosco) e sem que tenha sido pedido para ser posto na berlinda. assuntos esses, que por estarem "na ordem do dia", significam que estão aquém da situação que de cada vez decide o que é que está ou não a calibrar as vidas e o mundo das pessoas. mas talvez seja essa distracção que permite discorrer e decifrar acerca dos problemas, desses mundos e dos seus meandros, na tranquilidade domiciliada na distância relativamente aos seus temas, ou seja, ao serem tomados na consideração da sua ausência. há uma afecção por aspectos não decisivos que são tão distantes mas cuja afecção é real. a cordialidade postiça de quem se convence que apresenta o que nesse preciso momento revela não possuir, a pesporrência de salão, o teatro das palavras, a exibição entre-aspas, as velhas novidades tão à frente do tempo. o pior que pode acontecer a quem quer despachar o tempo é acabar por ser despachado. há uma prodigalidade (esbanjamento, generosidade, e profusão liberal) que procura iludir o tempo porque parece que há imenso tempo!
a afecção pelo distante que parece corresponder a uma desafecção do que é próprio. como se estivesse estabelecido já o que é próprio. sem fundamentar o que está pressuposto. há uma tranquilidade distraída. como se o conhecimento e o progresso tivessem significado por si só. há uma tendência de pensar no valor do saber desinteressado, da escrita desinteressada, da música desinteressada. como se o significado das coisas fosse puramente objectivo (em que o valor está no próprio objecto da tarefa executada). mas o valor do conteúdo decorre da tarefa e não do próprio conteúdo. porque a tarefa dá significado à resolução. queremos o resultado, mas sem a tarefa para o obter ele não existe. a posição relativamente à questão está deslocada, é proferida numa situação em que não se está. a loucura do crítico não está no conteúdo, mas numa posição que está esquecida, à distância. quando as determinações saiem fora do sítio, estão à distância da sua execução na realidade. trata-se de impedimento de acesso à situação que lhe corresponde. estamos preocupados com coisas que não têm nada a ver com o problema. qual é a atitude sensata relativamente ao que se passa e em que é que isso contribui para a felicidade geral?! a interrogação, quando não é retórica, suspende a afecção e a colagem, o caudal enorme que nos permite viver tranquilamente. experimentar essa posição não é recomendável. mas afinal de contas estamos apenas a escrever, e a escrita é somente uma tentativa, não é verdade!? porque nas conferências ou na opinião de jornal também os estúpidos têm as suas evidências. vamos assistir e ler para confirmar o assunto: a inadvertência relativamente à distância. há algo de cómico na demostração do valor desse saber pelo discurso. porque é que saber é preciso? há uma fé piedosa no saber e sobretudo, uma fé nas palavras. como é que de outra forma haveria compreensão? ou mesmo a possibilidade de ler? se o nosso ponto de vista é matéria de fé, porque é que então queima-se a terra em que se está? a resposta já foi dada antes de serem feitas estas perguntas.

tudo pode começar com uma imagem na mente. pode ser uma prova tão esclarecedora da possibilidade da nossa liberdade na sua forma mais pura porque emerge daquele fulgor que é inefável, que não se subtrai ao modo da fixação. é na nossa inteligibilidade, no que está mais próximo de nós, que tentamos encontrar os temas que nos interpelam para escrever um texto, um poema ou uma canção. estes falam de coisas que pressupomos o que são. sobretudo, não se apreendem sentidos nas bibliotecas, nos museus, nos anfiteatros, nas escolas ainda que estes façam parte de um reconhecimento, são um pouco de tudo o que nos toca. uma gorda fatia da estrutura da apredizagem. mas esta não é ao modo de um manual de instruções nem assume uma forma de consolo, cujo apreço nos devolve a glória de novos dias. por vezes a tentativa de esclarecimento pode ser inconveniente e conduzir a uma constatação do reconhecimento do contrário, ou seja, da falta de discernimento e de esclarecimento ao modo de uma injunção que poderemos invocar: "não sabemos explicar o processo, mas está concluído", ou então "cada vez nos é mais dificil compreender o modo como lidamos com estas coisas". há uma ilusão de ganho que não consegue preencher os seus quesitos. o que é visado na petição não lhe corresponde. ao invés, será porventura revelador se considerarmos que os resultados de um poema podem corresponder a meras descrições das coisas. não se sobrepõem a elas, não são uma grelha ou fórmula em que se pretende saber como é que as coisas são. não é assertivo nem pretende ser uma resolução terminante, mas corresponde a um modo de ser, a uma forma de vida do que há e do que está por haver. não perceber um texto poético é não perceber aquilo a que se refere. perceber um poema é perceber o nosso estado-de-coisas, mas também é evanescente no tempo de viver, dissipa-se na memória, é efémero, passível de esquecimento nos termos de reconhecimento da grande proporção que a sucessão de eventos assume na nossa vida. nada se entende se não estivermos nas situações às quais se fazem referência. é preciso viver essa posição para revê-la. é como um par de óculos, que é feito para não ser visto mas para ver. não podemos olhar para nós como se fôssemos contorcionistas. além disso, não está lá aquilo que regularmente procuramos, não é esse o seu lugar.

uma entre várias antecâmaras acerca do modo como se joga xadrez com as palavras e respectivos referentes. é um bom exercício para o espírito lúdico estar na sala de espera sabendo que ela já faz parte da sala de recepção. antecipar uma espectativa por via do carácter homogéneo do tempo. a situação não é a de um espectador – mas encontramo-nos na vida de todos os dias num modo cuja natureza constituinte é a de nos tocar, tanger. o sentir, o jogar, o escrever, o pintar, o tocar são variações autênticas da conexão imediata com o mundo das coisas e das pessoas – a situação é circunstancial, conjectural, na medida em que as experiências que por nós são tomadas em mãos constituem o fulgor intimo da satisfação que é estar a criar e a transformar a partir de nada, quando esse nada é apenas um expediente para dizer "tudo", as vivências em carne e osso. é aí que a atribuição de um pequeno papel de jogadores faz sentido, a despeito da possibilidade iminente da sua destituição – porque não há um controlo das situações, e o ser excentrado dentro da fantástica ilusão de que tudo faz sentido terá os seus custos bem caros se não formos advertidos para o facto de que o que fazemos e a utilidade que a isso atribuimos é um modo de fazer resistência e de nos opormos às adversidades (o jogo da imaginação pertence ao que está dentro e está fora dos eixos, o enfoque como usamos os brinquedos é um modo de articular e também de perceber que se pode ser articulado como uma marioneta). será importante dar-se conta do modo como somos empurrados veementemente por diferenças de sentido que não estão sob nosso controle. numa situação de exposição completa ao que sucede e ao que o dia traz. não de uma forma estática mas antes é da sua natureza constituir-se como lançe cujo jogo é temporal. porque somos interpelados a agir, há que erigir a força de vontade para concretizar. é esse "nada" que é "tudo", a matéria prima com que se trabalha e se fazem as canções, pintam-se os quadros, escrevem-se os livros. jogar com a palavra, usar a paleta que tem a escala cromática da tonalidade afectiva não é manipular a emoção (apesar de ser um risco que se corre permanentemente), mas, como diria o andrei tarkovski, esculpir o tempo, dar-lhe forma. há somente uma incógnita quanto à agenda, porque a exposição ao dia e à passagem do tempo é não só antecipada quanto ao conteúdo objectivo do que vai acontecer mas também anterior à forma de opacidade completa do futuro.

agora nós. algumas notas soltas da memória daqueles dias. os silos no monte de braço de prata guardam as sementes e as forragens para o inverno. tudo é inventariado no "livro das miudezas": a espera recatada das lebres entre as silvas, os cardos que crescem, a hora dos figos onde está o velho baloiço de madeira, as novas e velhas criaturas que nasceram na protecção do monte. os silos são as torres no meio das árvores que dão sombra aos dias de bronze. aguardam alguém que chega a trote da cidade para dar as boas notícias e é quem faz o gesto que traz o que é preciso para a semana. pedra-pomes, sabão azul-e-branco, petróleo, arame e pregos para as colmeias de cortiça, um saco com desenhos e uma torta de laranja de quem não pode vir passar uns dias connosco mas manda muitas saudades. de resto, temos tudo por cá: o mel, o leite, o pão, a horta e o pomar silvestre, oliveiras carregadas de azeitonas, hortelã selvagem no meio dos espinheiros. a astúcia do isolamento aproveita os seus talentos para raspar os picos dos cardos e lavar os talos das tengarrinhas para a sopa do jantar. na casa do monte, a lareira já está acesa, assim é desde as tardes de novembro até aos alvores de março. mas durante o ano inteiro, nas horas do meio, enquanto não se levam os talheres para a mesa, abre-se sempre o livro para escrever o dia. intensifica-se o coração com a música do crepúsculo. há uma guitarra velha, gasta das cantilenas e das elegias que se repetem nas gerações. estão de regresso os maiorais das amoreiras. dizem "boa noite e até amanhã!". guardam as cabaças, os arreios e as selas no celeiro da palha. e soltam os cavalos para descançar.


não há caminhos traçados no solo, mas há que caminhar na direcção que está a ser tomada. a marcha tem o seu ritmo sincopado, mas no interstício o labor não é abandonado. levamos connosco aquelas pequenas pedras que se prendem nos cascos e que se desfazem no andamento até ficarem em pó. tal como o carregador de pianos que aprende a melhor forma de tocar e ao mesmo tempo dirige a orquestra.do espaço onde se suspendem as imagens que pairam sobre nós, assobiamos para a nossa caixa de música. lá dentro não está aquela esguia serpente encantada pelo tocador de ocarina, nem a gargalhada do diabrete que apela à imitação das desgraças alheias como forma de expiar as suas: qualquer que seja o sarcasmo ou ironia do processo, a música não emerge com os guizos do jogral e passa a fazer o desconchavamento do sátiro. seria, como é óbvio, uma grande aspiração para os aprendizes do ofício, esse salto em vão que quer seguir a idealidade da musa e acompanhar os passos mágicos do demiúrgo. essa doação é uma rara possibilidade. nada nos parece mais ilusório e inocente, porque nesta construção não se é contemporâneo de si próprio e a vida não se deixa enganar pelas grandes formulações dos prodígios do sentimento e da impaciência lírica que cantam loas a seu respeito. o que se passa é que, constantemente, a realidade é bem mais prosaica e fala-nos, porém, outra linguagem, por vezes tão crua, esmagadora e indespedível. dá-nos a devida lição e toma os nossos passos para onde quer que se vá. na maior parte do tempo não temos com ela uma relação de mistério ou assombro. é como um halo feito de distracção que nos protege ao impedir-nos de olhar directamente para o sol. isto para dizer que há uma imediata identificação com o que temos diante de nós. alimentar-se do quotidiano e estar à mercê daquilo que o dia reserva. é nessa teia de encruzilhadas que é fundado o trabalho que é necessário ser feito. uma relação que funciona num solo de sustentação que não se consegue identificar se nos pedissem para o fazer.


mas basta um toque de pífaro, um pequeno sopro para brincar com o sortilégio. é um assunto que pode ser considerado delicado. talvez até melindroso porque está marcado por uma dificuldade essencial. é no mínimo peculiar procurar ter um acesso de espectativas e exprimir o que se revela como radicalmente indisponível. por exemplo, o maestro é a face mais visível acerca do modo como se conduzem as vagas de forças até ao esvaziamento. a música é o meio de expressão do que é imediato. a força da pura afecção. outro entre muitos exemplos desse facto é o modo como é criada uma variação de disposições e a instalação imediata no corpo por via da expressão, na dança. por outro lado, a palavra é, ao invés, a mediação, o programa e o processo da descrição. é também esta um modo de congregação, mas os modos como ambas lidam com o tempo são distintos. essa consideração significa que os seus sentidos - da música e da palavra - não podem ser desvelados de uma forma única e completa, sem fissuras.


a vida de que a música se alimenta e respira não tem uma só leitura, ela pode e deve ser vista sob um constrangimento de orientação que determina os vários ângulos que a podem modificar. não é impenetrável nem indecifrável, mas enigmática. são mais as perguntas que as respostas que esperam por nós.

pensar e falar sobre o que fazemos ou sobre o que nos interpela é um truísmo!? a resposta pode ser uma forma de escamotear uma incapacidade. é bom - porque é proveitoso - ter a consciência da dificuldade do que é formalizar pelo discurso a respeito de uma situação peculiar, mesmo quando se constata que a situação tem mais força do que o pensamento que notifica o que é dito a seu respeito. é algo que está pressuposto ao pensamento e a este só lhe é conferida pertinência quando um obstáculo surge como um problema a ser ultrapassado mesmo que seja por via de um procedimento meramente descritivo. consideramos que é correcto fazer uma, e mais uma, e mais outra tentativa sem ter medo de errar. se assim não fosse como é que poderiamos corrigir a orientação e burilar a forma?
quando não nos detemos na interjeição ou na surpresa, dizemos: 'este quadro tem força'; 'aquela sinfonia é intensa e poderosa'. torrente de força e de vida. criar é ser mais ser porque é o movimento que dá forma ao que está em bruto, por vezes de um modo tão automático e espontâneo que parece que não implica esforço. noutras circustâncias, parece que é arrancado a ferros, provoca um esvaziamento de forças, como no final de uma luta. todavia, esse acontecimento não anula a espectativa precisamente porque se está na posse de um critério com assentamento inexplícito que determina que a tarefa foi concluida. como um expediente resolutivo. a criação nasce desse conflito. não prescreve nem lida apenas com o que consideramos "belo" - ou com o que quer que isso queira significar - mas também emerge da fusão com o sombrio, com o horrível, com o que é tomado por nós como uma possibilidade extrema, precária. só neste jogo é que a forma de vida a que chamamos arte é completa. se esse jogo não implicar a possibilidade de se correr riscos, então estaremos a fomentar uma actividade que convida à presunção ou, dito de outro modo, à mentira. faz parte das regras. só assim - arriscar no meio das coisas - nos convençemos de que ela justifica e intensifica a vida.
compor, escrever, imaginar e projectar não são actividades supervenientes ou complementares, como actividades ao lado de outras actividades. há dificuldade em compreender o que é que há de original e de originário nisso. no que é mais elementar, no que está mais próximo e presente a nós, trata-se sobretudo, do modo próprio de nos sentirmos vivos, naquilo que constantemente nos corrige e regenera, um modo próprio de sermos reabilitados.

je est un autre
jean-arthur rimbaud, lettres dites du voyant, maio de 1871

este projecto tem um rosto. sendo o projecto tutelado por um indivíduo, ele próprio também terá um rosto. mas o rosto destes cavalos no gelo não tem forma humana. também não tem forma cavalar. tem uma forma, mas que estará por identificar, pois a isso corresponde o nosso trabalho no futuro. ficam algumas determinações incipientes para nós e para todos. por tentativa e erro.
um rosto que é mais rosto do que outro é um rosto cuja presença se destaca dando um passo em frente, num modo que lhe é próprio comunicar e do qual nem sempre se tem o acesso mais óbvio, porque a aparência transfigura o olhar. nem sempre é um vestígio de espelhos sem mistério ou ilusão. pelo contrário, nele se inscrevem percursos insidiosos, motivações ocultas, fomentam-se expectativas de significado através de sedimentos opacos, na constante e por vezes inesperada possibilidade de revelar um outro acontecimento não domesticado nem sugerido. para além de um excedente que se dispara e se projecta, o investimento de sentido de um rosto é o de um rosto visto, e a visão enquanto abertura não é pura, não exclui as determinações que estabilizam e apropriam o que se vê, na procura adequada do que presumimos ser da ordem da clareza e da distinção. de igual modo, um rosto não é uma pura presença, mas pode ter um sentido mudo relativamente àquele que lhe é atribuido. este projecto não respira na exibição do rosto do(s) seu(s) autor(es). mas este(s) também não se esconde(m) num velo de dissemelhança e confusão.
a respeito da exibição e do fenómeno do que consideramos do domínio da idolatria associado à imagem, encontramos um ponto de intersecção para interpretar (num desenvolvimento mais apurado em próximos textos) naquilo que se acha formulado por walter benjamin a respeito do que é próprio e específico na fotografia no seu famoso texto das kunstwerk im zeitalter seiner technischen reproduzierbarkeit (1936-1939), mas de que nos apropriamos a respeito do que há a considerar acerca do valor e da força da imagem neste tempo: “na fotografia, o valor de exposição começa a afastar, em todos os aspectos, o valor de culto. porém, este não cede sem resistência. ocupa uma última trincheira: o rosto humano”.
no fundo, o que pretendemos fazer é uma espécie de triagem a respeito do que há a ver, a ler e a ouvir neste projecto e para o efeito torna-se necessário encontrar um fio condutor que ligue as mais diversas tentativas que iremos experimentar. no fim, ou ainda no percurso, será esse fio a forma e o rosto do projecto.
uma expressão facial de um ser humano poderá ser tomada como perigosa enquanto não se arreda de uma espécie de variação ou de mecanismo de violência por via da manipulação e do disfarçe. a beleza de um esgar dissimula possívelmente alguma forma de sedução, como poderá reverter-se contra si e ao invés, revelar o resíduo grotesco de uma máscara deformada. o que é monstruoso alastra-se na desproporção como uma ameaça atraente, um contra-senso que é selvagem. os olhos são um reflexo entre películas, um nariz é um enigma, o lábio é uma membrana que mostra ou esconde os dentes, indicações que entram em rota de colisão com a determinação do sentido. na emergência da ambiguidade e dos sortilégios cintilantes das faces, no rubor ou na palidez, nos matizes e cambiantes da luz e da sombra, surge um jogo de contrastes.
daí uma dificuldade sempre recorrente de procurar discorrer na pintura, na fotografia, no cinema, em suma, sobre a imagem - neste caso de um rosto - quando esta se alimenta do fluxo da vida que escapa à forma do discurso, possui um outro processo, com as suas regras próprias, procurando focar o que se vê num caminho interdito à fixidez dos conceitos, quando o nosso domínio comum de acesso verbal e perceptivo não parece ser original nem inaugural. É dificil olhar para um rosto como se olha pela primeira vez.

para a margarida de todas as margaridas


o nosso projecto chama-se cavalos no gelo. o significado não é para o discurso relevante porque corresponde a um jogo livre com a marcação de regras próprias, já pressupostas ao jogo que é apresentado, aquém das regras do discurso. quem se recorda do espírito da infância sabe certamente do que se está a falar. caso contrário é porque paradoxalmente não cresceu ou viveu. não é uma proposta errática, porque não é de todo uma proposta, não há nada a propor. trata-se de vontade, força, iniciativa e incremento. as posições não foram transviadas. porque o que permanece é a dissemelhança independentemente do que projectamos. há que saber viver com isso. não é nenhum ajuste de contas com a vida. bem pelo contrário. o movimento é pleno de expectativa. nada há a reclamar a seu respeito. é mais uma demanda do que uma petição. como uma saga, a missão de sentir-se vivo e útil. por conseguinte também não se trata de considerar que tudo se passa como se nada se passasse. não há indiferença. as notas podem ser harmónicas ou dissonantes, conforme a tonalidade afectiva do momento que está a ser prescrito. o interesse e a emoção residem aí, na expectativa, no fio que está em suspenso. não solicitamos significados vagos e imprecisos. há apenas a folia da imaginação, fantasia, tal como nos serões nocturnos lá em casa em que evocamos histórias, formas de vida. ou em que alguém fica a olhar para as nuvens e procura descortinar nos seus contornos as formas precisas, reais que temos à mão no nosso mundo sublunar e, a despeito da vaga de incursões, permanece com os pés bem assentes no chão. é a isso que chamamos abstracção, a exclusão de formas concretas da realidade, mas que estão tão presentes quanto as demais. de qualquer modo é possível estar a olhar e não ver nada, estar a escutar sem saber ouvir. mas nesse caso a culpa não é nossa.

o livro preto é o título de uma exposição que viu a luz do dia em novembro de 2004 e da qual se apresentam os textos que foram escritos para o efeito.

livro preto - importa sublinhar desde já, para prevenir eventuais equívocos sobre o âmbito do trabalho que aqui é exposto e a eventual surpresa de não se encontrar qualquer relação com o título apresentado, que este encerra um determinado propósito, a saber, o de procurar averiguar uma furtiva ambivalência de significado naquilo que designamos por “amor”, na possibilidade sempre recorrente de poder ser outra coisa, que escapa ao nosso domínio comum de compreensão e de reconhecimento imediato, quando é nesse domínio que instalamos o foco da lucidez. o processo – na intersecção entre imagens e texto - é o de tactear às escuras, tendo como único ponto de apoio o movimento confessional dos autores deste projecto - o miguel e a cláudia - na permanente convicção de que ele não faz o périplo de todas as possibilidades e dos numerosos aspectos que se esperariam ver tratados, mas que só ele pode ser inaugural na tentativa de tirar o opaco véu do que motiva as relações. dada a complexidade do âmbito, esta exposição cobre apenas uma de três etapas delineadas de um projecto a desenvolver, a de um momento de uma relação na idade adulta, entre a descoberta na infância que foi e está para ser, e da velhice do que outrora foi e já não é senão na memória. o domínio deste projecto não cobre ou destaca um plano vedado a outro, como se o amor se prestasse a manifestar de formas peculiares mais ou menos canonizadas em compartimentos estanques, mas instancia reconhecimento no género da relação, nas constelações afectivas. perante os motivos apresentados, este trabalho situa-se numa zona de limiar, de início, que homologa uma certa ambiguidade, na fronteira entre a relação e a não-relação, entre a intimidade e a estranheza, entre a transparência e a opacidade, entre a união e a alteridade, a sintonia e a síntese como resultado já operatório do movimento entre opostos. nesse sentido, imagem e texto procuram engendrar uma solução de descontinuidade, porque a sua relação não é ilustrativa, mas complementar nas diferentes determinações da forma de exposição de cada “medium”.



se o amor é carne, esta não pode ser dissecada porque morre. se a mulher é a carne do amor, a tensão das suas fibras não pode ser cortada porque estas são a ponte de duas margens que não podem ser afastadas. não há pontes sem margens!
desfibrar o cordão tenso da ponte é cortar pelo cálculo o elo incalculável da união. a morte é separação.
*
o avassalador e absurdo no amor é o estar vertido no que não se escolheu, colidir na encruzilhada com um outro alguém e reclamar que esse rumo que nos toma não acha lugar ou acolhimento por quem o visitou, sem que para isso lhe tivesse sido pedida autorização. o amor não se subtrai a razões porque as pressupõe. como tal, não se consegue ver de fora o que também não se consegue ver de dentro.
*
se o amor é um episódio da necessidade, de nada lhe serve aparecer sob a forma de uma paixão arrebatadora; buscar e dar razões é a necessidade de deitar contas e, sem se dar conta, extrai-se o que há de avassalador e absurdo no amor, transformando-o num acontecimento, num direito entre outros. por isso, a mulher nunca adorada converte implacavelmente o amor na justiça que corta a vida dos homens. a isso eles chamam, sem o compreender, crueldade.
*
viver em estado de guerra e encontrar prazer nisso, em que cada um faz o possível por dominar o outro vendo-o fora de si, corresponde a um desejo louco de o obrigar a revelar-se, de se ocupar da sua opacidade.
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interrogamo-nos sobre o que vemos no outro ou sobre aquilo que nos toma. a despeito da opacidade, poder-se-á tomar a mentira da relação como uma espécie de arrogância subtil que serve os interesses do desejo ou da vontade de poder sobre outro, sem se compreender muito bem que ele seja cego para isso ou, pelo contrário, que possa dissimular pelo assentimento, uma falsa submissão. por vezes é dificil saber quem engana quem!
*
a perplexidade perante os motivos, as causas, os objectos da paixão dos outros tem a intensidade de uma asserção disfarçada pelo medo do fracasso e da frustação. como se nós próprios nunca aparentassemos amar, a cortesia disfarçada e interesseira, as mentiras que pregamos ou engolimos ingénuamente.
*
a mulher aproxima-se daqueles que a desejam, no meio de tantos falsos desejos e semi-desilusões. quantos homens não põem manifestamente os desígnios do poder e os destinos do mundo acima do amor de uma mulher sem saber que o mundo divide-se entre aqueles que amam e os que aparentam amar. ela sabe isso, sente-o de imediato e cede aos primeiros.
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os amantes julgam que se entendem. que se compreendem por meias palavras. imaginam que vivem uma espécie de fusão abençoada e de harmonia. porque eles procuram a completude e a plenitude. claro que não existe ou só muito brevemente, após uma súbita paixão recíproca, em estado de implosão amorosa. depressa um se torna opaco para o outro. porque permanece a infinita alteridade do parceiro amoroso, mesmo aquele que se julgou estar mais próximo e fundido com o outro numa só pessoa, esse velho sonho.
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o amor nunca é tão intenso como quando se tem diante de nós um outro diferente de nós, estranho ao nosso acontecimento, contrário de um duplo cúmplice, do ângulo cego da imagem invertida, do reflexo no espelho.
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o sentimento de ser-se “feito” para quem quer que seja é estranho e vertiginoso. no outro não está lá aquilo que lhe é projectado, a supressão da falta. é apenas desejo que abdica, sem dar-se conta, da estranheza. desocupar a vertigem e dar lugar à motivação corresponde à possibilidade de estar iludido.
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um todo é um composto misterioso, uma irreconhecível combinação de moléculas. não é “um” mas “dois”. não sou “eu” mas “nós”. não “meu” mas “nosso”. na renúncia ao jogo do desejo que dá lugar ao estado em comum, o que muda é a substituição da aversão pelo consentimento.
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a astúcia é um dos elementos da sedução. há um encanto natural mas também o modo como é usado. a comédia e a farsa do pudor, a beleza esquiva e conquistadora, as roupas, os odores fazem parte do aparato do que convem mostrar ou esconder.
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um novo encontro todas as noites significa que a segurança não está afirmada de direito, não há a propriedade do outro, nem afirmada a certeza automática da noite seguinte. renovar o pacto todos os dias é perceber que não há hora marcada para as intrusões e para a obscenidade.
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o que acontece com a vida de coabitação é que o jogo e a encenação permanecem na exacta medida em que há um esforço para continuar a convençer que o corpo não é um logro e a fisiologia uma ilusão sem aqueles momentos do entusiasmo, do extase e do excesso, para os quais, por vezes é preciso um esforço da imaginação, uma fantasia.
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o que é erótico pode ser a representação de uma comédia, de um ritual astucioso em que se desenvolvem manobras e manigâncias destinadas a fazer acreditar que se é espírito e não carne, que é puro e não corrompido ou sórdido. mas há o momento perturbador de um pequeno pormenor, o movimento do gesto, o interstício das palavras com um suspiro ou uma interjeição que bastarão para traír ou revelar a má fé do amante.
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gostariamos que a experiência que acumulámos sobre os caminhos do amor não fosse inútil ou vã... que fossemos poupados dos passos em falso, das feridas... mas facilmente apercebemo-nos que há uma ilusão de ganho e que essa é a melhor lição de vida que podemos extraír das relações. tornamo-nos apenas mais cautelosos na convicção e no receio de que, de todas as experiências a do amor é intransmissível. aprende-se, sem ensinar, a desejar.
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vamos lá saber porque é que alguém se liga a outra pessoa, o que é que se vê nela, excluindo a possibilidade “remota” de se deixar apanhar por uma criatura absurda, inadequada, que trará infelicidade. o amor é sempre à primeira vista!



os cavalos vão para o espaço. publicamos o texto de apresentação na página dos cavalos no gelo no myspace: http://www.myspace.com/cavalosnogelo:


"whatever it may be claimed with meaning, what we call "frosted horses" is not a band. it doesn't even exists. but the short story of cavalos no gelo belongs to a real place that slowly disappears as the ice melts. laughing stock of some moanfull jokes about sketches of jonathan swift's houyhnhnmsland, or others not so funny about threats to some kind or way of life, about our joyful hope for future. the place is called the silver arm and the neck of land. for those who know or live in lisbon, braço de prata is an old railway station looking for tagus. but the place we stand is on the other side, above the river, behind marshy swamps, pines, cork oaks, bulls and horses. leziria is cavalos no gelo homeland where we call for some people's name: miguel, margarida, rosa, antonieta, o senhor joão... what was endured was some images of the past. they see and hear the city in the distance - o céu solar de lisboa - but the sparks of days and nights are with them. the music shares their living memories and our present life, there and abroad."



este é um projecto que está ainda numa fase preliminar e que se pretende desenvolver nos domínios da escrita, da música e da imagem. caminhamos como anões aos ombros de gigantes. daí, apropriando-nos numa citação de um dos fragmentos de novalis - je poetischer, je wahrer - "quanto mais poético, mais verdadeiro". esta página destina-se a ser um diário de ocorrências e tem como objectivo acompanhar tanto quanto possível, no seu máximo rigor - mas também com a paixão e a generosidade própria de quem ainda é e se sente jovem, na melhor expectativa de quem quer dar tudo quanto pode, o melhor que sabe - os seus sucessivos passos. a despeito de já estarmos nesta demanda há um tempo considerável, pretendemos dar passos pequenos mas firmes, a tactear quase às escuras mas certos de que estamos no percurso que visamos, no trajecto que nos é permitido desenvolver, sem veredas ou desvios no que há a definir. muito trabalho já foi feito, mas o ponto de chegada é sempre o eterno começo onde tudo está ainda por fazer.

miguel pessoa vidal

venham guerras , venham espadas
os cavalos correm para a morte
cavaleiros sem cavalos são peões
são demónios, falsas tradições